Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de fevereiro, 2020

A solidão ou não, é o reflexo da nossa inteligência

Um mundo interior precário nos fará vítimas do tédio de sermos, nós próprios, áridos e insípidos. Fará com que lancemos mão de todos os recursos possíveis para nos esquecermos de nós mesmos, de nossa miséria, de nosso abandono, e disso nascerá uma necessidade desesperada de socialização. Por tal motivo os indivíduos mais vulgares costumam ser os mais sociáveis. A carência provocada pela pobreza de suas individualidades os torna extremamente dependentes de recursos externos, de modo que seu único prazer na existência consiste em fugir de si mesmo. Indivíduos brutos são mais sociáveis porque os únicos prazeres que podemos cultivar sozinhos, sem que haja dor envolvida, são os de natureza intelectual — significando que nossa capacidade de desfrutálos estará determinada pela grandeza de nossa inteligência. Diferentemente dos prazeres físicos, cuja satisfação sempre se mistura à dor, os prazeres intelectuais realizam-se sem qualquer sofrimento. Uma mente eminente é, por si só, uma fonte ines...

A utilidade do otimismo

Como o universo da prática é considerado o mundo real por excelência, é compreensível que a veracidade, ou melhor, o valor das perspectivas seja mais pesadamente avaliado pelas suas consequências positivas que pelas suas evidências ou sua fundamentação lógica. Assim, se o fato de acreditarmos que “no fim, tudo dará certo” nos ajuda de algum modo, digamos, reduzindo nossa ansiedade quanto ao futuro, teremos um bom motivo para julgar a mentira preferível em termos de resultados finais positivos. Quando temos como finalidade a motivação, mentir a respeito de questões que melhorarão nosso desempenho torna-se uma postura bastante lógica. A oração é um ótimo exemplo disso. Do ponto de vista da verdade, uma oração equivale a um procedimento placebo que consiste em acreditar, imbuído de um otimismo intelectualmente indecente, que tudo dará certo porque uma projeção pueril de uma providência beneficente paterna violará as leis naturais para ajudar um mamífero insignificante a conquistar seus ob...

O que é o pessimismo?

O pessimismo não se opõe ao otimismo se considerarmos também este em sua acepção vulgar, a saber, que tudo dará certo simplesmente porque existimos, porque o mundo conspira misteriosamente para nosso sucesso e que dele já nascemos merecedores. Nossa vida, que é um copo pela metade, não apenas está meio cheio, como ficará cada vez mais cheio até transbordar de alegria. O otimismo, como se vê, faz com que nossa visão da realidade seja distorcida por uma positividade irracional, e isso o pessimismo não faz, pois a visão que pinta não está distorcida por um comprometimento em ser útil. Para que houvesse uma oposição real entre ambos, seria necessário um pessimismo que distorcesse a realidade negativamente, como dizer que, se rolarmos um dado, este cairá mais vezes no um apenas porque somos destinados ao infortúnio incontornável de uma vida desgraçada. Esse é o tipo de maluquice que o otimismo tem o direito de professar sem nenhuma censura. O otimismo é uma ótica infantil e supersticiosa, q...

A que se resume um pessimista?

O pessimismo não incomoda por sua falsidade, mas por sua integridade cega e inútil, por nos tirar de nosso pedestal, tornar nosso próprio umbigo relativo e fazer com que duvidemos do altíssimo valor que atribuímos a nós mesmos e aos nossos sonhos que, não obstante, depois de dissecados, dificilmente se revelam algo além de uma medida preventiva contra o tédio. O problema é que o pessimista louva tanto a verdade que se esquece de si próprio e da importância da mentira. Seja como for, é evidente que nos enganamos o tempo todo, e isso é algo que nos envergonha quando lançado à cara. Nós que, de tanto fingir, imaginamos ser super-heróis, nos vemos obrigados a reconhecer publicamente que não podemos voar: só queríamos nos sentir um pouco especiais. Seria doloroso admitir, por exemplo, que todas as ocupações às quais nos dedicamos são apenas um passatempo para suportarmos a vida. No dia a dia, sempre precisamos cultivar um entusiasmo cavalar e ilusões de todos os tipos para conseguirmos a mo...

A felicidade é uma cenoura

Nossa situação não é muito diferente daquela de um burro que tem uma cenoura pendurada à sua frente. Nossa cenoura se chama felicidade. Perseguindo-a, corremos em busca de algo que jamais alcançaremos. Temos a impressão de que nascemos para ser felizes, mas apenas porque estamos presos à lógica interna de nossa natureza biológica. A condição de ser vivo nos impõe como referenciais supremos o prazer e o sofrimento. Contudo, o prazer é apenas um mecanismo psicológico arquitetado para influenciar nosso comportamento, não uma realidade à qual estamos caminhando. Isso ficará claro se considerarmos o fato de que, ao alcançarmos a satisfação de algum desejo, teremos apenas alguns instantes de prazer como recompensa e, em seguida, já nos começam a molestar novas necessidades que nos tornarão inquietos. Não tardará para que partamos novamente à ação, num ciclo de insatisfação que só terminará com a morte do indivíduo ou com a aquisição de um grão de bom senso. A. Cancian in O Vazio da Máqu...

O disfarce do interesse

Numa interação interpessoal, desenha-se mais ou menos a seguinte situação. Temos dois indivíduos, e ambos são seres subjetivos bastante conscientes de suas verdadeiras opiniões e motivos íntimos quanto a tudo o que os interessa. Na sua relação, todavia, só são capazes de alcançar a camada mais superficial um do outro, isto é, aquilo que se apresenta objetivamente diante de seus olhos. Sendo que todo ser humano é única e exclusivamente egoísta, cada qual buscará sua própria satisfação através de jogos que exploram esse abismo do incomunicável e do não-comunicado, sem nunca deixar transparecer suas intenções de modo escancarado. Nesse teatro, calcula-se muito bem aquilo que se diz, mas principalmente aquilo que se cala. Isso também porque nosso íntimo é constituído de elementos tão mesquinhos e vis que dificilmente outro indivíduo conseguiria disfarçar a repulsa caso nos mostrássemos tais e quais. Podemos encontrar exemplos desse tipo de jogo em todo lugar. Quando vamos à rua nos fins de...

Lucro líquido em prazer social

Suponha-se que nos sintamos insignificantes perante a sociedade e queiramos mudar essa situação. Como não podemos simplesmente nos dar essa sensação pelo uso da inteligência, teremos de nos manipular indiretamente, e nesse processo há duas abordagens: podemos fazer todo o possível para convencer os demais de que somos importantes, e então acreditar em seu testemunho, ou simplesmente acreditarmos nisso sozinhos por motivos que só existem em nossas cabeças. Ou seja, podemos jogar limpo, como a biologia planejou, isto é, manipular a realidade, tornarmo-nos socialmente destacados, conquistando essa importância indiretamente, por meio de um status refletido na opinião pública, e em função disso nos acreditarmos importantes — ou simplesmente manipular a mente, cultivando crenças errôneas quaisquer que nos proporcionem essa mesma sensação. O resultado é idêntico: a crença de que somos importantes e o lucro líquido em prazer. Pensemos mais a respeito. Qual é a diferença entre ser importante e ...

A razão aprisionada pela emoção, um fator humano inevitável

Sabemos que opiniões são fáceis de corrigir: basta informar. Porém, crenças errôneas, por seu fundo emocional, são extremamente difíceis de abandonar, pois para serem passíveis de correção não basta que sejam errôneas, não basta que saibamos disso, é também preciso que acreditemos nisso — e este é o maior problema: como informar e controlar o cérebro emocional racionalmente, se a própria razão está sob seu controle? Não podemos: crenças algemam a inteligência. Assim, por um lado, o cérebro emocional não tem como saber se uma crença é verdadeira ou falsa e, por outro, a inteligência não é capaz de exercer controle direto sobre ela: o resultado é que não há como mudá-las direta e voluntariamente, pelo uso da razão. Talvez saibamos que aquilo é errado, mas sentimos que é certo, então para todos os fins é certo, e ponto final. Crenças emocionais só se alteram por motivos emocionais, e isso é um fato bem conhecido. Então, se quisermos influenciar nossas emoções, como fazer? Sabemos que não ...

A maturidade de saber e o desprezo pelo reconhecimento

O homem finalmente se torna adulto, abandona seus brinquedos metafísicos e põe os pés no mundo real. Entretanto, o fato de esse processo ser penoso não o torna digno de qualquer elogio — pois, se a dor fosse um bom critério, todas as verdades seriam alcançadas pela tortura. Trata-se de uma busca pessoal, como qualquer outra, ainda que busquemos algo que poderá ser útil a todos, pois o conhecimento objetivo é válido universalmente. Qualquer indivíduo pode se valer do conhecimento da realidade. Isso só exige que sejamos honestos, que vejamos o mundo com os olhos, separado de nossas vidas, valores e crenças, sem interpretá-lo e falsificá-lo em função de uma ótica pessoal. Mesmo assim, somos necessariamente honestos apenas para com nós mesmos, pois a honestidade social é uma questão completamente distinta. A integridade só pode possuir valor numa abordagem pessoal, na medida em que exige de nós uma absoluta honestidade para com nós mesmos, tornando-nos mais conscientes da realidade. Essa m...

Niilismo prático?

Há outro modo de entrarmos em contato com o niilismo, apesar de não ser o mais agradável. Trata-se não de tentarmos entender o vazio da existência racionalmente, através da reflexão, mas de sentirmos esse vazio afetivamente. O próprio fato de haver um ponto de contato tão inesperado entre uma visão puramente teórica e uma faceta da subjetividade humana de abrangência universal torna o assunto, se não mais interessante, ao menos mais digno de consideração. Trata-se da situação em que a visão cotidiana da vida, imersa em fantasias e fechada em si mesma, se esfacela pelo confronto com uma situação desconcertante, fazendo com que o mundo se reduza a algo pobre e vazio. Estamos falando do luto, ou seja, a reação natural de todo ser humano ante a perda de algo afetivamente importante, como um ente querido, uma relação amorosa, amigos próximos, inclusive ideais ou qualquer outra coisa com a qual se tinha um vínculo afetivo estreito. Não nos referimos, obviamente, ao ritual de usar roupas pret...

Que é Realidade?

Nossa consciência do mundo é, então, uma representação do mundo, um ponto de vista particular de um cérebro de um organismo particular. Nossa percepção do mundo não é o próprio mundo: é apenas o modo como nosso cérebro nos apresenta esse mundo. Essa realidade, portanto, em vez de imediata, é mediata: está para o mundo assim como um mapa rodoviário está para as estradas. Trata-se de uma reprodução aproximada, de uma tradução mais ou menos equivalente, não de uma transposição direta. Claro que nossos corpos, nossos cérebros, nossos processos mentais existem e acontecem objetivamente. Entretanto, o mundo que se apresenta diante de nós através da consciência, através dos sentidos, é uma realidade apenas subjetiva, que depende de nós para existir. Por isso ela varia de sujeito para sujeito. Aquilo que vemos como uma cor azul, outro indivíduo pode ver como uma cor verde. Aquilo que para nós tem cheiro podre, para abutres presumivelmente tem cheiro maravilhoso. Há infinitos modos de interpret...

Realidade dolorosa

Sobre o niilismo: "...o niilismo nada mais é que um exercício de honestidade e imparcialidade, e apenas esvazia a realidade das ficções que nunca existiram de fato. Essa honestidade pode ser dolorosa, mas é um sinal de maturidade. Se a existência, despida de ilusões, nos parece vazia, saibamos ao menos admitir que a culpa é nossa por termos nos enchido delas". André Cancian in O Vazio da Máquina

Diferença das filosofias existenciais sobre o homem consciente e sobre o homem inconsciente

A filosofia existencialista indaga necessariamente a respeito da matéria do homem, digo a filosofia existencial mais pura, àquela que delibera sobre o homem "sem a consciência", partindo do princípio que ele "acabara de existir" e deve ser diagnosticado. Não necessariamente parte do princípio do homem consciente, que já se reconhece existente e está promovido, agora, de envolver-se consigo mesmo e assim, com seu meio social. O meio social é o primeiro impacto do homem consciente com a existência, vai além do meio natural, onde o homem se apresenta estático, imóvel, sem ânimo nem sentimentalismo que o impulsione, como móvel da ação. Sem a consciência o homem seria equivalente a uma pedra, a rigor. A solitude, a paralisia, a decomposição seriam fatores inevitáveis.  Pensando a respeito do homem consciente em comparação ao que é inconsciente, embora esses fatores sejam válidos para o homem consciente, também, muitas das vezes ele não os percebe, não os reflete e pio...

Súplica intermitente

O suicídio é algo que sempre me emocionou. Sempre me fascinou a ideia de alguém tirar sua própria vida. Já imaginei até artisticamente o ato. Por que não romantizá-lo? Afinal, essa ideia de amor à vida nunca me agradou. Nunca vi motivos, depois que indaguei sobre, nos primeiros instantes, de continuar. É enfadonho. É um suplício. Vai além de querer morrer por tediosidade, pelo contrário, tendo também esse fator, a própria morte pelas próprias mãos de forma iminente seria o ma ior ato de rebeldia contra toda essa merda que reconhecemos de vida. Tão natural quanto a vida é seu fim. Porém, apesar do cansaço de mover-me, o fardo de suportar-me e suportar tudo, não creio no otimismo do suicídio. É ótimo acreditar que algo vá mudar para melhor após a morte ou que vou sanar minhas angústias na paralisia da inércia dela. Mas, o fato de não saber o que me aguarda, me faz não acreditar no benefício. Na verdade, por que abreviar o inevitável? Ainda posso lamuriar sobre minhas inquietudes, ainda p...

Móvel do trabalhador alienado

Mover-se ao encontro do tédio é uma estética virulenta de sentido de vida mais impensada de todas, é o originário do trabalho alienado à embriaguez nos fins de semana. Impensando sobre a inconsciência, submetemos ao composto. Somos especialistas em maquiar a auto estima com ilusões que precedem a mera sobrevivência. Matheus

Saúde mental crispada

Que é "superação"? de onde vem o que legitima o termo como sendo factível? A superação do pobre é ser rico, do violentado é vingar-se? ou ,superar é tão somente esquecer os sofrimentos do passado por puro salutar do psicológico? Ignorando a primeira opção, observemos a segunda: superar para sentir-se bem. Não acredito na superação dos nossos transtornos, pelo próprio equívoco de percepção do que se define por "saudável". O que é saudável? No caso, o que seria saúde psicológica? seria a superação, a libertação do passado, das amarguras que nos causaram rupturas abissais? Saúde mental não tem propriedade certa de terminologia que a estruture e a legitime. Saúde mental é tão somente a supressão, o encolhimento dos nossos problemas para equilíbrio comportamental. Não existe uma fonte que sustém a qualidade de positividade, no termo. Ignoramos, suprimimos, exilamos nossos problemas em um local no nosso subjetivo para evitar excessos e lampejos emocionais que nos causem o...

Sobre viver sem fundamentações

Após a publicação do Breviário em espanhol, dois estudantes andaluzes me perguntaram se era possível viver sem fundamentación. Respondi-lhes que era verdade não ter encontrado nunca uma base sólida em lugar nenhum e, no entanto, ter conseguido subsistir porque, com os anos, a gente se habitua a tudo, até a vertigem. E depois não estamos despertos e não nos interrogamos o tempo todo, sendo a lucidez absoluta incompatível com a respiração. Se estivéssemos, a cada momento, conscientes do que sabemos, se, por exemplo, a sensação da falta de fundamento fosse ao mesmo tempo contínua e intensa, cometeríamos suicídio ou cairíamos na idiotia. Só existimos graças aos momentos em que esquecemos certas verdades e isso porque durante esses intervalos acumulamos a energia que nos permite enfrentar as ditas verdades. Quando me desprezo, digo a mim mesmo, para recuperar a confiança, que, no final das contas, consegui me manter na existência ou num simulacro de existência com uma percepção das coisas...

Confissão Resumida - Emil Cioran

Só tenho vontade de escrever num estado explosivo, na excitação ou na crispação, num estupor transformado em frenesi, num clima de ajuste de contas em que as invectivas substituem as bofetadas e os golpes. Em geral, começa assim: um ligeiro tremor que se torna cada vez mais forte, como depois de um insulto que se recebeu sem responder. Expressão equivale à réplica tardia ou à agressão adiada. Escrevo para não passar ao ato, para evitar uma crise. A expressão é alívio, desforra indireta daquele que não consegue digerir uma vergonha e que se revolta em palavras contra os seus semelhantes e contra si mesmo. A indignação é menos um gesto moral que literário, é mesmo a mola da inspiração. E a sabedoria? É justamente o oposto. O sábio em nós arruína todos os nossos élans, é o sabotador que nos enfraquece e nos paralisa, que espreita em nós o louco para dominá-lo e comprometê-lo, para desonrá-lo. A inspiração? Um desequilíbrio súbito, volúpia inominável de se afirmar ou de se destruir. Não es...

Autopiedade como reflexo da vitalidade da nossa razão

O excesso de autopiedade conserva a nossa razão porque essa concentração nas nossas misérias provém de um alarme da nossa vitalidade, de uma reação de energia, ao mesmo tempo que exprime um disfarce elegíaco do nosso instinto de conservação. Não tenha nenhuma piedade dos que têm piedade de si próprios. Eles nunca desmoronarão totalmente. Emil Cioran

Elogio ao fracasso

Sabedores que metas são ruínas na verdade, ficções para a ação, nos resta abdicar do planejamento, descansar de pensar no futuro. Um fim último, que é a monotonia do descaso, remete-nos à frustração. A frustração de impotência, da nossa luta daquilo que se baseou em elucubrações abobadas da ingenuidade da nossa filosofia, da pouca importância que demos a nos conhecer. Para a inocuidade do nosso ser:  "saboreie o fracasso";  não como que se houvesse mais opções para não fazê-lo, porque não havendo, como não há, é o sucesso que nos resta. Matheus

Quando nos deparamos com o abismo das nossas expectativas

"Atingi a realidade última que não é o nada, mas a monotonia em que me transformei". - Caillois Essa iluminação não devia ter futuro e, tocado o abismo, somos prevenidos da maneira mais clara possível de que não contém nada de divino, que é apenas matéria, lavas, fusões, tumulto cósmico. Nunca é demais enfatizar a originalidade deste fracasso. Somos todos, evidentemente, fracassados em alguma aspiração mística, todos nós inscrevemos nossos limites e nossas impossibilidades no âmago de alguma experiência extrema. Emil Cioran

Do que tange o lirismo (6)

Abraço mi'a lamúria chorosa da amargura. Simpatizo com as trevas, envolto-me dela, deixo-a entrar, me tomar. Na madrugada, com rosto desfalecido, dirijo-me ao quarto para o espelho. No espelho observo, querendo observar algo que me faça entrar em pânico e sentir algo além do enfado da opacidade. No espelho me deparo com meu alter ego fúnebre, um defunto sugado que me dá calafrios, possesso pelo próprio diabo que mostra-se verve diante do olhar. Que olhar frígido, vermelho e fundo! típico dum furibundo insone, radical consigo, temente a nada além dos causos impossíveis, sob o receio do desconhecido. Me abomino e a tudo, desacreditei do meu fim, vou perpetuar-me na cadeira no meu quarto, no silêncio mórbido, triste a ponto de ser gélido. Quero demonstrar alguma novidade de esperança, uma bonança qualquer que é típica dos que não produzem sublimidade do pensamento, falho, declino, decaio aperriado, conformando-me com minhas inevitabilidades, com minha submissão fastiosa. Que tenh...

Sobre a visão do pessimista

Tudo o que vemos merece ser visto, tudo o que existe é incuravelmente existente, parece nos dizer, enquanto, no transe, na vertigem da plenitude, num apetite orgíaco de real, procura preencher e enriquecer o vazio sem lhe infligir esta catástrofe da opacidade e da gravitação que desacredita a matéria. Emil Cioran

O composto do existencialista

A existência só possui legitimidade ou valor se somos capazes de perceber, mesmo nas dimensões do ínfimo, a presença do insubstituível. Aquele que não o conseguir de modo algum, reduzirá o espetáculo do devir a uma sucessão de equivalências e de simulacros, a um jogo de aparências sobre um fundo de identidade. Julga-se clarividente e certamente o é, mas a clarividência que possui, de tanto fazê-lo oscilar entre o fútil e o fúnebre, acaba por mergulhá-lo em ruminações infrutíferas, no sarcasmo excessivo e na complacência ante a reprovação. Desolado por nunca poder conferir às suas vagas amarguras a densidade do veneno e, além disso, cansado de colaborar para a invalidação do Ser, se volta para aqueles que, engajados na aventura do elogio, superiores às trevas, livres da superstição do não, ousam aceitar tudo, porque para eles tudo importa, tudo é irreparavelmente único. Emil Cioran

Do que tange o lirismo (5)

Minha auto afirmação declina no éter do meu cansaço. O tédio no cume. Somar no meio de outros é o ultraje da cafonice. Prefiro sentar lúcido e me hipnotizar pelo chão. Destilar porcarias no meu alter ego disperso no vão. Maquiar-me no meu célebre mutismo. Zombar do fascínio, fixar no cinismo, me alegrar em ser aquém para evitar meu exaspero para comigo. Matheus