Sabemos que opiniões são fáceis de corrigir: basta informar. Porém, crenças errôneas, por seu fundo
emocional, são extremamente difíceis de abandonar, pois para serem passíveis de correção não basta que
sejam errôneas, não basta que saibamos disso, é também preciso que acreditemos nisso — e este é o
maior problema: como informar e controlar o cérebro emocional racionalmente, se a própria razão está
sob seu controle? Não podemos: crenças algemam a inteligência.
Assim, por um lado, o cérebro emocional não tem como saber se uma crença é verdadeira ou falsa e,
por outro, a inteligência não é capaz de exercer controle direto sobre ela: o resultado é que não há como
mudá-las direta e voluntariamente, pelo uso da razão. Talvez saibamos que aquilo é errado, mas sentimos
que é certo, então para todos os fins é certo, e ponto final. Crenças emocionais só se alteram por motivos
emocionais, e isso é um fato bem conhecido. Então, se quisermos influenciar nossas emoções, como
fazer? Sabemos que não podemos controlar nossas emoções diretamente, mas indiretamente, sim, e a
receita é simples: basta falar o que querem ouvir numa linguagem que consigam entender — e elas
ouvem, pois crenças não são nossas inimigas, são apenas burras. Podemos, então, usar o cérebro racional
para elaborar uma espécie de teatro em que haverá situações emocionalmente relevantes que nos levarão
acreditar naquilo que queremos em função de um objetivo qualquer. Noutras palavras: lavagem cerebral.
Claro que, ao pensar em lavagem cerebral, logo imaginamos religiosos desmiolados ou prisioneiros de
guerra sob tortura, mas essa é uma visão tacanha. Pensemos o seguinte: o que caracteriza a conversão
religiosa? Experiências pessoais — das quais a fé é uma consequência, não a causa. O mesmo vale para
a tortura física: muda nosso modo de ver o mundo depois de submetidos a essa experiência traumática
por um período suficientemente longo. Por isso religião não se discute: se pratica. Por isso tortura não se
discute: se insere sob as unhas. Apenas através da ação conseguimos alcançar resultados emocionalmente
significativos.
Para percebermos como é vasta a abrangência dessa ideia, basta caminharmos a um campo mais
distante dessas maluquices — por exemplo, o campo médico voltado à saúde mental —, e observar que
se orientam exatamente pelos mesmos princípios no tratamento de fobias: levar à prática. Sabemos que
dialogar racionalmente com o medo é inútil, então para superá-lo nos expomos controladamente à
situação que nos causa medo tantas vezes quanto necessário, até que o cérebro emocional se convença
disso, e nos permita voltar a ser racionais naquele assunto. Isso também é lavagem cerebral, porém com
fins construtivos, e percebamos que nada disso está muito longe de nosso cotidiano. Se prestarmos
alguma atenção, veremos como são comuns e fáceis de encontrar exemplos da aplicação dessas ideias:
em igrejas com suas contradições santas, em empresas com suas técnicas motivacionais, em livros de
autoajuda com seu otimismo acéfalo, em terapias psicológicas com seu autoconhecimento enlatado, em
atividades em grupo com seus preconceitos coercitivos e coisas afins — são inúmeras as técnicas que
desenvolvemos para manipular nossas emoções indiretamente, e nenhuma delas tem relação com a
verdade. Todas se baseiam no mesmo princípio da lavagem cerebral: o condicionamento afetivo
realizado com o fim de alterar nosso modo de sentir a realidade e, por conseguinte, a opinião racional
que temos dela. Sabemos que tais coisas são mentiras, mas gostamos que nosso cérebro emocional
acredite nelas, então as usamos. Há, naturalmente, muitas possibilidades interessantes a serem exploradas
na manipulação emocional, inclusive relativamente às possíveis vantagens de se crer em mentiras.
Porém, tudo tem um preço e, se não formos cuidadosos, o processo pode deixar cicatrizes irreparáveis
em nossa inteligência — sendo esse o motivo pelo qual Deus existe.
A. Cancian in O Vazio da Máquina
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