Quando Kant propõe a existência do objeto incognoscível, que é o mundo objetivo exterior impossibilitado à compreensão humana, e chama o objetivo de "númeno", fazendo a separação do subjetivo, ele arma um desenho claro da ideia do que é a realidade real, ou seja, o que ela é em si, do que nós interpretamos sobre o que ela possa ser. Porém, em todo esse desenho há um erro. Porque, se é impossível interpretarmos a realidade como ela exatamente é, como existir qualquer avanço científico? Como manipular a matéria para fazer uma cadeira, por exemplo? Como fabricarmos prédios, naves que vão ao espaço, remédios para hipertensão, soníferos ou qualquer coisa que influencie no mundo material, se não conseguimos compreende-lo em sua totalidade? Embora esse raciocínio evidencie muita imaginação, o mundo objetivo existe como a coisa fora de nós, enquanto podemos separar o que há dentro de nós como o que é subjetivo. Se olharmos para a natureza e admitirmos que ela é péssima porque é cruel por causa das mortes aleatórias, a pirâmide da força animal, os universos sendo extintos e originando buracos negros, a vida sendo depreciada pela morte, estamos de qualquer forma atribuindo conceitos morais para a forma como o mundo objetivo se comporta, e isso é um erro, visto que o que achamos e emotivamente animamos à realidade a ela nada implica, porque nossa moralidade para a natureza de nada vale. É aqui que o vazio niilista se faz presente, uma vez que ele pressupõe a ausência tanto do bem, quanto do mau, um conceito que serve para explicar a amoralidade da existência. A vida não poderia, portanto, ser péssima, porque estaríamos concebendo que ela é ruim porque é má, e não podemos moralizar a vida. No entanto, se ao observarmos a crueldade da vida e a assumirmos como sua forma, que é naturalmente grotesca a uma compreensão ética, podemos inferir que a vida é péssima, mas como essa moralidade partiu de dentro de nós como um impulso expressivo de emoção, podemos transforma-la ao nosso bel prazer e formar uma nova impressão. Logo, por que não embelezar a nossa compreensão da vida assumindo uma nova perspectiva que seja benéfica para nossa sanidade, algo que resultará em um possível estado de felicidade?
A felicidade não é um estado permanente de clímax, mas resultado de uma oscilação e ponderação de momentos de prazer, que serve de base para como lidamos com momentos de sofrimento. Mas, como atingir esse estado quando já assumimos de antemão a nulidade da vida pelo niilismo a ela atribuído? Reforçando a filosofia otimista. Uma das melhores bases para lidar com a vida é aplicar ensinamentos oportunos. Alguns podemos extrair do Epicurismo e do Estoicismo. O Epicurismo afirma que a felicidade é a entrada nos estados de Ataraxia, que é a ausência de perturbações e a Aponia, que é a ausência de medos. Conseguimos isso através do Tetrapharmakon, que são quatro preceitos básicos: O primeiro é "não tema a deus", o segundo, "não tema a morte", o terceiro, "o que for bom se alcança pela simplicidade", o quarto e último, "o sofrimento supera-se facilmente". O primeiro preceito ele usa o seu paradoxo, conhecido, claro, como Paradoxo de Epicuro, para afirmar que deuses não interferem na vida humana, visto um mundo tão horrível e injusto e ao mesmo tempo tão leal aos deuses. Logo, por que teme-los? O segundo preceito evoca a ideia de não temer a morte porque ela não está sob nosso controle. Se morreremos hoje, daqui a um minuto ou amanhã por qualquer causa aleatória, se até nos lugares mais seguros somos submetidos a falta de autonomia sobre isso, por que preocupar-se, então? O terceiro aplica-se a moderação. Sua frase "nada é suficiente para o homem, cujo suficiente é pouco", deixa claro que o homem mais abastado pode ter tudo, mas se tudo que ele tiver não satisfazê-lo, ou seja, se sua ganância por ter sempre mais não cessa seus desejos de sempre possuir, tudo que ele tiver será pouco, logo devemos nos contentar com o que temos e saber apreciar o que temos no agora para nos satisfazer, com simplicidade e excelência. O quarto preceito afirma que qualquer sofrimento pode ser superado porque não é duradouro e reflete o caráter efêmero do sofrimento e, também, do prazer. Se o sofrimento é muito, refugie-se nos pensamentos e encare-o com ânimo, sabendo que toda madrugada fria e triste é acompanhada por um lindo e aconchegante nascer do sol. O epicurismo é contra os exageros, porque os excessos fazem mal ao homem e tiram-lhe o real prazer. Um vinho só é saboroso até quando está doce na boca, quando amarga, deixa de ser gostoso. Os exageros levam aos vícios e os vícios dominam o homem e o destroem. Já o Estoicismo indaga, é possível achar paz interior por mais conflitante e horrorosa seja a nossa vida? Epicteto afirma: "Não é o que nos acontece, mas é como reagimos ao que nos acontece que importa". Em outras palavras, não importa se nossa vida é vazia e melancólica, é como lidamos com isso que realmente importa. O consolo na tragédia é rir em meio ao caos. Podemos controlar as tragédias que nos sobrevém? Certo que não, mas podemos controlar como nos sentimos sobre isso.
Dessa forma o Niilismo pode adquirir um caráter otimista, ao refletirmos que não só nossa vida é vazia, mas toda a existência é carente de sentido ou razão. Porém, algumas pessoas escolhem enfrentar as incertezas do acaso de sorriso no rosto e peito aberto e outras preferem desabar nas lamentações pela frustração da paralisia do nada. Podemos, no que concerne a isso, controlar a opinião das pessoas sobre nós ou o julgo que a sociedade nos impõe? Obviamente não, então para quê se importar? Se nosso melhor não recebe bom julgamento e o pior de tantos recebe aprovação, é evidente que isso está para razão assim como essa está para a loucura. Só nossa opinião deve nos importar, ou a opinião das pessoas mais inteligentes ao nosso redor, porque não podemos esperar capacidade crítica de quem não tem para nos oferecer. Estamos desobrigados de qualquer coisa, o peso dos nossos ombros deveria adquirir suavidade, sem fardo, sem tristeza. Pensando sobre isso Sêneca afirma: "Como isso poderia nos ajudar, transformar os problemas em algo mais pesado, lamentando-os?". Se estamos no lamaçal da vida, por que não dançar?
Matheus Ferreira
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