Suponha-se que nos sintamos insignificantes
perante a sociedade e queiramos mudar essa situação. Como não podemos simplesmente nos dar essa
sensação pelo uso da inteligência, teremos de nos manipular indiretamente, e nesse processo há duas
abordagens: podemos fazer todo o possível para convencer os demais de que somos importantes, e então
acreditar em seu testemunho, ou simplesmente acreditarmos nisso sozinhos por motivos que só existem
em nossas cabeças. Ou seja, podemos jogar limpo, como a biologia planejou, isto é, manipular a
realidade, tornarmo-nos socialmente destacados, conquistando essa importância indiretamente, por meio
de um status refletido na opinião pública, e em função disso nos acreditarmos importantes — ou
simplesmente manipular a mente, cultivando crenças errôneas quaisquer que nos proporcionem essa
mesma sensação. O resultado é idêntico: a crença de que somos importantes e o lucro líquido em prazer.
Pensemos mais a respeito. Qual é a diferença entre ser importante e apenas crer nisso? Em termos de verdade, nenhuma. Porém, em termos de sociedade, toda. Se apenas nós acreditamos que somos importantes, isso é uma mentira; se todos acreditam que somos importantes, isso é uma verdade. Por isso nesses assuntos mentira e verdade são exatamente a mesma coisa, pois nenhuma delas corresponde a qualquer realidade objetiva, mas apenas a julgamentos coletivos, os quais convencionam os valores que norteiam a sociedade como um todo. Tais crenças arbitrárias — como nosso valor pessoal —, em rigor, são apenas delírios, mas podem também ser entendidas como jogos que surgiram em nós como um efeito colateral de sua utilidade reprodutiva. Ou seja, competimos porque isso funciona, não porque faz sentido. Desse modo, tenhamos em mente que tais competições orquestradas pela biologia estão a serviço da perpetuação genética, e que nossa necessidade de competir, em si mesma, é apenas uma consequência indireta dos tipos de comportamentos que se mostram favoráveis à reprodução de nossos genes. Claro que tais competições, em si mesmas, são vazias, pois o jogo não passa de um meio para a competição, que por sua vez não passa de um meio para a perpetuação. Contudo, não importa que essas crenças não tenham realidade por detrás, porque na vida, como em qualquer jogo, o importante é competir. Nessa ótica, torna-se óbvia a razão pela qual damos muito mais importância à opinião dos demais que às nossas próprias no tocante ao nosso valor pessoal, mesmo sabendo que, racionalmente, isso não faz o menor sentido. A opinião que temos de nós mesmos é emocionalmente irrelevante nesse particular exatamente porque vencer sozinho não vale nada — para que uma crença qualquer seja biologicamente relevante é preciso que todos acreditem nela. Então, como o valor desses jogos convencionados só pode ser apreendido se tivermos em vista as implicações da competição na eternidade genética, faz perfeito sentido que seja prazerosa a crença de que somos importantes, e também faz perfeito sentido que não consigamos acreditar nisso voluntariamente, pois estamos lidando com a representação da importância, não com a importância em si mesma. É vital que ela seja difícil de falsificar.
Claro que, dentro disso, nossos motivos pessoais, nossas explicações e racionalizações de nossos atos são apenas sonhos verborrágicos. O que realmente conta é nosso comportamento. Ou seja, não importam os motivos pelos quais pensamos que competimos, mas apenas que compitamos em função de critérios publicamente reconhecidos. Nossa tendência de empregar o reconhecimento público como referencial de valor reflete apenas um comportamento que se mostrou favorável à perpetuação genética. Isso, por um lado, revela a gratuidade de nossas competições, mas também o motivo pelo qual não vemos com bons olhos aquele que possui crenças que não correspondem à realidade. Isso porque, para que a competição seja biologicamente relevante, é importante que nossas crenças sejam honestas indicadoras da realidade. Por tal motivo não invejamos quem sente prazer sem merecê-lo: mesmo que se sinta um vencedor, aquele que vence sozinho só pode ser um lunático. São coisas assim que pensamos dos que tentam fraudar os jogos do cérebro emocional. Ainda que, no fundo, não haja diferença alguma entre uma coisa e outra, insistimos em acreditar que há, e usamos pretextos desse tipo para nos sentirmos justificados.
Pensemos mais a respeito. Qual é a diferença entre ser importante e apenas crer nisso? Em termos de verdade, nenhuma. Porém, em termos de sociedade, toda. Se apenas nós acreditamos que somos importantes, isso é uma mentira; se todos acreditam que somos importantes, isso é uma verdade. Por isso nesses assuntos mentira e verdade são exatamente a mesma coisa, pois nenhuma delas corresponde a qualquer realidade objetiva, mas apenas a julgamentos coletivos, os quais convencionam os valores que norteiam a sociedade como um todo. Tais crenças arbitrárias — como nosso valor pessoal —, em rigor, são apenas delírios, mas podem também ser entendidas como jogos que surgiram em nós como um efeito colateral de sua utilidade reprodutiva. Ou seja, competimos porque isso funciona, não porque faz sentido. Desse modo, tenhamos em mente que tais competições orquestradas pela biologia estão a serviço da perpetuação genética, e que nossa necessidade de competir, em si mesma, é apenas uma consequência indireta dos tipos de comportamentos que se mostram favoráveis à reprodução de nossos genes. Claro que tais competições, em si mesmas, são vazias, pois o jogo não passa de um meio para a competição, que por sua vez não passa de um meio para a perpetuação. Contudo, não importa que essas crenças não tenham realidade por detrás, porque na vida, como em qualquer jogo, o importante é competir. Nessa ótica, torna-se óbvia a razão pela qual damos muito mais importância à opinião dos demais que às nossas próprias no tocante ao nosso valor pessoal, mesmo sabendo que, racionalmente, isso não faz o menor sentido. A opinião que temos de nós mesmos é emocionalmente irrelevante nesse particular exatamente porque vencer sozinho não vale nada — para que uma crença qualquer seja biologicamente relevante é preciso que todos acreditem nela. Então, como o valor desses jogos convencionados só pode ser apreendido se tivermos em vista as implicações da competição na eternidade genética, faz perfeito sentido que seja prazerosa a crença de que somos importantes, e também faz perfeito sentido que não consigamos acreditar nisso voluntariamente, pois estamos lidando com a representação da importância, não com a importância em si mesma. É vital que ela seja difícil de falsificar.
Claro que, dentro disso, nossos motivos pessoais, nossas explicações e racionalizações de nossos atos são apenas sonhos verborrágicos. O que realmente conta é nosso comportamento. Ou seja, não importam os motivos pelos quais pensamos que competimos, mas apenas que compitamos em função de critérios publicamente reconhecidos. Nossa tendência de empregar o reconhecimento público como referencial de valor reflete apenas um comportamento que se mostrou favorável à perpetuação genética. Isso, por um lado, revela a gratuidade de nossas competições, mas também o motivo pelo qual não vemos com bons olhos aquele que possui crenças que não correspondem à realidade. Isso porque, para que a competição seja biologicamente relevante, é importante que nossas crenças sejam honestas indicadoras da realidade. Por tal motivo não invejamos quem sente prazer sem merecê-lo: mesmo que se sinta um vencedor, aquele que vence sozinho só pode ser um lunático. São coisas assim que pensamos dos que tentam fraudar os jogos do cérebro emocional. Ainda que, no fundo, não haja diferença alguma entre uma coisa e outra, insistimos em acreditar que há, e usamos pretextos desse tipo para nos sentirmos justificados.
A. Cancian in O Vazio da Máquina
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