Um mundo interior precário nos fará vítimas do tédio de sermos, nós próprios, áridos e insípidos. Fará
com que lancemos mão de todos os recursos possíveis para nos esquecermos de nós mesmos, de nossa
miséria, de nosso abandono, e disso nascerá uma necessidade desesperada de socialização. Por tal
motivo os indivíduos mais vulgares costumam ser os mais sociáveis. A carência provocada pela pobreza
de suas individualidades os torna extremamente dependentes de recursos externos, de modo que seu único
prazer na existência consiste em fugir de si mesmo.
Indivíduos brutos são mais sociáveis porque os únicos prazeres que podemos cultivar sozinhos, sem
que haja dor envolvida, são os de natureza intelectual — significando que nossa capacidade de desfrutálos estará determinada pela grandeza de nossa inteligência. Diferentemente dos prazeres físicos, cuja
satisfação sempre se mistura à dor, os prazeres intelectuais realizam-se sem qualquer sofrimento. Uma
mente eminente é, por si só, uma fonte inesgotável de prazer.
Entretanto, quem não possui dotes intelectuais consideráveis não pode encontrar prazer em atividades
que envolvam o emprego da inteligência, pois, como lhe falta capacidade, não pode sentir tais atividades
como um interesse pessoal, assim como um indivíduo fora de forma não consegue encontrar prazer em
atividades físicas. O único inconveniente de uma inteligência elevada consiste no fato de que, com o
aumento geral da sensibilidade, nos tornamos capazes de grandes prazeres, mas também nos expomos em
maior grau às dores do mundo. A inteligência aumenta a amplitude e a intensidade de nossas experiências
pessoais, e isso significa que, quanto mais elevada é a inteligência de um homem, mais sofre — porém,
no mesmo grau, mais capacidade tem de encontrar prazer e consolo em si próprio.
Assim, quanto maior sua inteligência, mais interessante será o conteúdo de sua imaginação, mais
fantásticas as viagens de seu pensamento. Uma inteligência bem exercitada pode encontrar distração nos
objetos de seu pensamento exatamente como se estivessem diante de seus olhos, exatamente como alguém
que, buscando distrair-se, em vez de ler um livro, escreve-o em pensamento, experimentando em primeira
mão todas as emoções e sutilezas da estória, ou toda a profundidade e brilhantismo das reflexões. Porém,
é evidente que, se não tivermos dons nesse particular, dar atenção à nossa imaginação enquanto tentamos
exercitar qualidades que não temos será apenas uma forma silenciosa de alcançar o tédio.
Homens com mentes brutas, por outro lado, são insensíveis aos prazeres abstratos: um poema não os
comove; uma teoria não os fascina; a filosofia não os instiga; a ciência não os instrui; a arte não os toca; a
música não os inspira. Seu intelecto não tem tato, sua imaginação não tem asas. A única utilidade de seus
cérebros é reagir a estímulos externos. O ambiente condiciona completamente sua atividade, tanto que
sequer conseguem rir quando estão sozinhos: precisam observar cenas concretas porque sua capacidade
imaginativa os acorrenta ao presente imediato.
Assim, aborrecidos por não encontrarem nada de interessante em seu interior, voltam-se ao exterior, às
distrações e aos gozos dos sentidos: festas, sexo, jogos, apostas, competições etc. Buscam a socialização
para fugir de si mesmos, e unem-se pelo seu propósito comum de não pensar; entediam-se em grupo. É
comum que o sentido mais elevado de suas vidas seja acumular dinheiro e conquistar prestígio social.
Porém, uma vez alcançados, não sabem como empregá-los. Tornam-se fins em si próprios, e suas vidas
resumem-se à acumulação de riquezas e de reconhecimento público. Trabalham incansavelmente e, em
seus períodos de lazer, socializam-se. Não têm liberdade de explorar outras atividades.
Repudiar a solidão, portanto, não passa de um meio indireto de admitir que não suportamos nossa
própria companhia, que somos uma ilha inabitável. Apesar de todas as qualidades que julgamos possuir,
das quais nos vangloriamos constantemente, muitas vezes somos a última pessoa com a qual gostaríamos
de conviver solitariamente. Talvez os demais acreditem em nossas encenações cotidianas, mas nós nos
conhecemos bem mais para crer nessas imposturas.
Naturalmente, se vivemos para propagandear uma imagem que não reflete o que somos, é claro que,
sozinhos, sentiremos que viver não tem sentido — mas o fato é que a ausência de plateia só incomoda
atores. A solidão só rouba de si mesmo aquele cuja vida se reduz ao que os demais pensam a seu
respeito. Os que, por outro lado, buscam a solidão, são os que não precisam dos demais. Quando o valor
de nossas riquezas não depende do testemunho alheio, nunca nos importaremos muito em exibi-las. Só
quem se acredita rico sem realmente sê-lo precisa dos demais, pois precisa fingir que é rico — e seu
prazer passa a consistir da ideia de riqueza que cultiva na mente dos demais, sendo essa a razão pela
qual a solidão o reduz a um indigente.
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São sempre redes de interesse pessoal que nos levam a entrar em contato uns com os outros. Se os homens bastassem a si mesmos, a sociedade não existiria. Os homens se detestam, todos, sem exceção: são rivais não-declarados. Não perdem uma oportunidade de pilhar uns aos outros quando sabem que sairão impunes. São seres sociais, mas agrupam-se por necessidade, como porcos-espinho no inverno. Suportam-se apenas porque não têm escolha, porque sozinhos morreriam de frio, do contrário dariam as costas sem pestanejar. Por isso a socialização é uma necessidade aos ineptos, mas uma desgraça aos sábios.
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São sempre redes de interesse pessoal que nos levam a entrar em contato uns com os outros. Se os homens bastassem a si mesmos, a sociedade não existiria. Os homens se detestam, todos, sem exceção: são rivais não-declarados. Não perdem uma oportunidade de pilhar uns aos outros quando sabem que sairão impunes. São seres sociais, mas agrupam-se por necessidade, como porcos-espinho no inverno. Suportam-se apenas porque não têm escolha, porque sozinhos morreriam de frio, do contrário dariam as costas sem pestanejar. Por isso a socialização é uma necessidade aos ineptos, mas uma desgraça aos sábios.
A. Cancian in O Vazio da Máquina
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