A existência só possui legitimidade ou valor se somos capazes de perceber, mesmo nas dimensões do ínfimo, a presença
do insubstituível. Aquele que não o conseguir de modo algum, reduzirá o espetáculo do devir a uma sucessão de equivalências
e de simulacros, a um jogo de aparências sobre um fundo de identidade. Julga-se clarividente e certamente o é, mas a
clarividência que possui, de tanto fazê-lo oscilar entre o fútil e o fúnebre, acaba por mergulhá-lo em ruminações infrutíferas,
no sarcasmo excessivo e na complacência ante a reprovação. Desolado por nunca poder conferir às suas vagas amarguras a
densidade do veneno e, além disso, cansado de colaborar para a invalidação do Ser, se volta para aqueles que, engajados na
aventura do elogio, superiores às trevas, livres da superstição do não, ousam aceitar tudo, porque para eles tudo importa, tudo
é irreparavelmente único.
Emil Cioran
Comentários
Postar um comentário