Há outro modo de entrarmos em contato com o niilismo, apesar de não ser o mais agradável. Trata-se
não de tentarmos entender o vazio da existência racionalmente, através da reflexão, mas de sentirmos
esse vazio afetivamente. O próprio fato de haver um ponto de contato tão inesperado entre uma visão
puramente teórica e uma faceta da subjetividade humana de abrangência universal torna o assunto, se não
mais interessante, ao menos mais digno de consideração.
Trata-se da situação em que a visão cotidiana da vida, imersa em fantasias e fechada em si mesma, se
esfacela pelo confronto com uma situação desconcertante, fazendo com que o mundo se reduza a algo
pobre e vazio. Estamos falando do luto, ou seja, a reação natural de todo ser humano ante a perda de algo
afetivamente importante, como um ente querido, uma relação amorosa, amigos próximos, inclusive ideais
ou qualquer outra coisa com a qual se tinha um vínculo afetivo estreito.
Não nos referimos, obviamente, ao ritual de usar roupas pretas nem a minutos de silêncio, tampouco a
gemidos histéricos ou a rios de lágrimas, mas ao que ocorre subjetivamente na visão de mundo do
indivíduo, ao estado de espírito acarretado pela perda. Os sintomas comuns do luto são tristeza,
depressão, abatimento, falta de interesse pelo mundo exterior e, o que é especialmente interessante em
nosso caso, uma lucidez penetrante. Esse estado em geral pode ser descrito como a sensação de que tudo
“perde o sentido” ou de que “nada tem valor”. Em nenhuma outra situação compreende-se melhor o
significado do termo “em vão”.
Quando buscamos algo que, em termos práticos, corresponda ao niilismo, vemos que o luto é um forte
candidato. Isso porque a impressão que se tem é que o indivíduo enlutado torna-se provisoriamente
niilista por uma espécie de “emergência emocional”. Em emergências nas quais nossa integridade física
está em jogo, a reação automática do corpo é disparar o comando de luta-ou-fuga. Igualmente, quando a
integridade de nosso mundo psicológico está em jogo, temos o luto como uma reação de parar-e-pensar,
como se o cérebro, ao “reduzir a nada” nossa subjetividade, estivesse nos preparando fisiologicamente
para uma revisão fria e calculada da realidade.
Como, nesse caso, o indivíduo não está apenas devaneando sobre o vazio da existência, mas sentindoo intimamente, a vivência prática é seriamente prejudicada pela angústia e pela depressão, fazendo com
que a vida pareça algo completamente sem sentido — e não é, no fim das contas, justamente esse o caso?
Não é estranho que a maioria dos indivíduos precise chegar a tal extremo para apreender esse tipo de
verdade? Pois todas as vezes em que tentamos encontrar “razões” que justifiquem ou deem sentido à
vida, sempre chegamos à conclusão de que não há nenhuma. Como não há saída, ninguém insiste muito
nesse ponto. Cedo ou tarde, reconhecemos o caráter nulo desse tipo de empreitada e, sem protestos,
limitamo-nos a nos deixar guiar pela vontade, empregando a razão como um acessório que fica a seu
serviço.
O problema é que, quando transposto à prática, o niilismo tem o aspecto de uma enfermidade mental,
de algo que nos paralisa, sendo que até já foi caracterizado pela psiquiatria como uma forma de delírio
em que o sujeito nega a existência da realidade, no todo ou em parte. A ideia de que a realidade cotidiana
que nos rodeia não tem valor algum, de que ela sequer existe objetivamente, é perfeitamente lógica e
justificável. Contudo, quando o niilismo contamina nosso mundo afetivo, ele nos força a admitir que nós
próprios somos nada, faz com que nos sintamos esse nada — e, quando ambas as coisas coincidem,
convergem em uma lógica incrivelmente sólida. A única saída parece ser o suicídio prático que resolverá
um problema teórico.
Claro que a maioria das pessoas não é tão dominada pela racionalidade a ponto de cometer suicídio
motivada por silogismos. Contudo, temos de admitir que sentir-se vazio é algo bastante perturbador,
ainda mais quando temos o completo entendimento de que isso não é um delírio, mas um estado mental
em que conseguimos apreender com clareza uma das verdades mais elementares às quais temos acesso.
Apenas caso não nos contentássemos somente com apreender esse nada intelectualmente, mas também
quiséssemos orquestrar toda a nossa vida prática em função dele, vivendo como múmias paralíticas,
então teríamos nos tornado seres perfeitamente delirantes. Isso é fisicamente impossível, e com razão
constitui um transtorno mental.
Assim, não podendo agir de acordo com tal verdade, a saída escapatória mais razoável seria admitir
que compreender a realidade e viver nela são coisas regidas por regras distintas. Apesar de que, em
essência, aquilo que se faz em ambos os casos não difere muito: num caso estaremos fantasiando em um
mundo particular e, no outro, em um mundo público. As duas soluções surgem em legítima defesa, mas só
uma delas não faz com que percamos o contato com a realidade que nos cerca, isto é, com a sociedade.
Todos fantasiam o mundo para poder suportá-lo, inclusive niilistas. Fugimos do vazio para conseguirmos viver, mas devemos ter em mente que o abismo não deixa de existir apenas porque desviamos o olhar e a vertigem passa. De qualquer modo, intelectualmente, tal fato não nos incomoda, pois há uma grande diferença entre saber que há um abismo e estar nesse abismo, assim como é diferente apenas sabermos que leões são perigosos e estarmos cara a cara com um. Portanto, precisamos apenas procurar meios de desviar o olhar afetivo da perspectiva niilista, pois nosso olhar lógico, enquanto permanecer são, nunca será capaz de fazê-lo — já que isso equivaleria a negar a realidade. Não que isso não seja feito, mas é realmente lamentável dar com a porta na cara da verdade no único lugar no qual podemos recebê-la. Nessa ótica, o luto poderia ser entendido como uma espécie de niilismo psicológico, no qual apreendemos o vazio da existência não diretamente, por meio da reflexão, mas indiretamente, por meio da afetividade. O estado depressivo nos proporciona uma intuição seca e direta a respeito da realidade objetiva, reduzindo o subjetivo a nada — e podemos perceber que isso equivale a um procedimento de fiscalização da realidade de nosso mundo psicológico feito involuntariamente, pelo próprio cérebro. Nessas situações convulsivas, somos forçados a encarar a realidade nua e crua, e até os indivíduos mais otimistas veem-se sequestrados pela lucidez. Enquanto o indivíduo estiver enlutado, perde a capacidade de enganar-se. Por isso nada do que dissermos será capaz de consolá-lo; por isso também os religiosos choram em velórios, coisa que a princípio não faz muito sentido. O fato é que, ao ver seu ente querido ser abraçado pelos vermes, todo religioso percebe que sua crença em espíritos e reencarnações é, no fundo, uma piada que tenta negar o óbvio. Suas crenças só voltarão a consolá-lo depois que tiver superado a perda.
...
Como, em longo prazo, o niilismo é incompatível com a manutenção da vida, é bastante comum ouvirmos que ele é apenas um “estado provisório”, algo a ser “superado”. E isso está correto. Porém, não devemos confundir superar o niilismo prático com refutar o niilismo teórico — flertando com aquele relativismo otimista que parece um elogio à demência. A questão é somente o que se pode fazer apesar de a existência ser oca, apesar de todo o nada, sem fugir da questão como covardes. E superar o niilismo nada mais é que pensar em nós próprios como a fonte última de valor e sentido de todas as coisas. Acostumarmo-nos a lidar com tais assuntos sem extrapolar a esfera de nossa própria subjetividade. Na prática, temos de superar o niilismo porque a realidade não se importa conosco — ela nunca se compadecerá de nossa miséria. Quer estejamos certos ou errados, ainda será preciso mantermos nossas barrigas cheias e nossos corpos aquecidos, e isso significa que superá-lo é uma questão biológica, não um problema filosófico. Se o niilismo a princípio nos paralisa, é apenas porque, em grande parte, são ilusões que nos movem, e é inevitável que fiquemos temporariamente atordoados ao nos darmos conta disso. Contudo, voltar a caminhar não equivale a superar o niilismo, e sim à aquisição da capacidade de separar melhor nosso conhecimento de nossas necessidades práticas, até que ambas as coisas voltem a funcionar normalmente, porém de forma mais independente. Desse modo, a superação do niilismo diz respeito ao seu efeito paralisante prático que torna a vida mórbida, não à sua incoerência lógica; diz respeito ao fato de que é impossível justificar uma vida subjetiva por meio do nada objetivo. E isso, digamo-lo de uma vez, é realizado através da loucura, o único modo por meio do qual podemos viver racionalmente num mundo absurdo. Contudo, não devemos esperar nada muito extraordinário disso, já que a vida, em si mesma, é um sistema completamente maluco. Essa “loucura” não é o mesmo que direito irrestrito à estupidez, não é o mesmo que perder a razão. A loucura à qual nos referimos é algo que atravessa a vida de ponta a ponta: nossa natureza. Ou seja, trata-se de algo que conhecemos muito bem. São nossas pequenas fantasias humanas que, apesar de todo o nada, nos permitem levar a vida adiante, ainda que isso não faça sentido algum.
Todos fantasiam o mundo para poder suportá-lo, inclusive niilistas. Fugimos do vazio para conseguirmos viver, mas devemos ter em mente que o abismo não deixa de existir apenas porque desviamos o olhar e a vertigem passa. De qualquer modo, intelectualmente, tal fato não nos incomoda, pois há uma grande diferença entre saber que há um abismo e estar nesse abismo, assim como é diferente apenas sabermos que leões são perigosos e estarmos cara a cara com um. Portanto, precisamos apenas procurar meios de desviar o olhar afetivo da perspectiva niilista, pois nosso olhar lógico, enquanto permanecer são, nunca será capaz de fazê-lo — já que isso equivaleria a negar a realidade. Não que isso não seja feito, mas é realmente lamentável dar com a porta na cara da verdade no único lugar no qual podemos recebê-la. Nessa ótica, o luto poderia ser entendido como uma espécie de niilismo psicológico, no qual apreendemos o vazio da existência não diretamente, por meio da reflexão, mas indiretamente, por meio da afetividade. O estado depressivo nos proporciona uma intuição seca e direta a respeito da realidade objetiva, reduzindo o subjetivo a nada — e podemos perceber que isso equivale a um procedimento de fiscalização da realidade de nosso mundo psicológico feito involuntariamente, pelo próprio cérebro. Nessas situações convulsivas, somos forçados a encarar a realidade nua e crua, e até os indivíduos mais otimistas veem-se sequestrados pela lucidez. Enquanto o indivíduo estiver enlutado, perde a capacidade de enganar-se. Por isso nada do que dissermos será capaz de consolá-lo; por isso também os religiosos choram em velórios, coisa que a princípio não faz muito sentido. O fato é que, ao ver seu ente querido ser abraçado pelos vermes, todo religioso percebe que sua crença em espíritos e reencarnações é, no fundo, uma piada que tenta negar o óbvio. Suas crenças só voltarão a consolá-lo depois que tiver superado a perda.
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Como, em longo prazo, o niilismo é incompatível com a manutenção da vida, é bastante comum ouvirmos que ele é apenas um “estado provisório”, algo a ser “superado”. E isso está correto. Porém, não devemos confundir superar o niilismo prático com refutar o niilismo teórico — flertando com aquele relativismo otimista que parece um elogio à demência. A questão é somente o que se pode fazer apesar de a existência ser oca, apesar de todo o nada, sem fugir da questão como covardes. E superar o niilismo nada mais é que pensar em nós próprios como a fonte última de valor e sentido de todas as coisas. Acostumarmo-nos a lidar com tais assuntos sem extrapolar a esfera de nossa própria subjetividade. Na prática, temos de superar o niilismo porque a realidade não se importa conosco — ela nunca se compadecerá de nossa miséria. Quer estejamos certos ou errados, ainda será preciso mantermos nossas barrigas cheias e nossos corpos aquecidos, e isso significa que superá-lo é uma questão biológica, não um problema filosófico. Se o niilismo a princípio nos paralisa, é apenas porque, em grande parte, são ilusões que nos movem, e é inevitável que fiquemos temporariamente atordoados ao nos darmos conta disso. Contudo, voltar a caminhar não equivale a superar o niilismo, e sim à aquisição da capacidade de separar melhor nosso conhecimento de nossas necessidades práticas, até que ambas as coisas voltem a funcionar normalmente, porém de forma mais independente. Desse modo, a superação do niilismo diz respeito ao seu efeito paralisante prático que torna a vida mórbida, não à sua incoerência lógica; diz respeito ao fato de que é impossível justificar uma vida subjetiva por meio do nada objetivo. E isso, digamo-lo de uma vez, é realizado através da loucura, o único modo por meio do qual podemos viver racionalmente num mundo absurdo. Contudo, não devemos esperar nada muito extraordinário disso, já que a vida, em si mesma, é um sistema completamente maluco. Essa “loucura” não é o mesmo que direito irrestrito à estupidez, não é o mesmo que perder a razão. A loucura à qual nos referimos é algo que atravessa a vida de ponta a ponta: nossa natureza. Ou seja, trata-se de algo que conhecemos muito bem. São nossas pequenas fantasias humanas que, apesar de todo o nada, nos permitem levar a vida adiante, ainda que isso não faça sentido algum.
A. Cancian in O Vazio da Máquina
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