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O disfarce do interesse

Numa interação interpessoal, desenha-se mais ou menos a seguinte situação. Temos dois indivíduos, e ambos são seres subjetivos bastante conscientes de suas verdadeiras opiniões e motivos íntimos quanto a tudo o que os interessa. Na sua relação, todavia, só são capazes de alcançar a camada mais superficial um do outro, isto é, aquilo que se apresenta objetivamente diante de seus olhos. Sendo que todo ser humano é única e exclusivamente egoísta, cada qual buscará sua própria satisfação através de jogos que exploram esse abismo do incomunicável e do não-comunicado, sem nunca deixar transparecer suas intenções de modo escancarado. Nesse teatro, calcula-se muito bem aquilo que se diz, mas principalmente aquilo que se cala. Isso também porque nosso íntimo é constituído de elementos tão mesquinhos e vis que dificilmente outro indivíduo conseguiria disfarçar a repulsa caso nos mostrássemos tais e quais. Podemos encontrar exemplos desse tipo de jogo em todo lugar. Quando vamos à rua nos fins de semana, encontramos um sem-número de indivíduos extremamente bem vestidos, ostentando posses e qualidades custosas sob o pretexto da recreação. Passam horas andando, conversando e bebendo aparentemente a esmo. Esmagam-se em aglomerados humanos sem qualquer razão clara. Ou seja, estão se socializando, que é a versão humana da luta por status e do ritual de acasalamento. Quando, por exemplo, conversam publicamente sobre assuntos difíceis, nunca falam baixo. Pelo contrário, aumentam desnecessariamente o volume de suas vozes na esperança de que alguém note seus dotes intelectuais, sua erudição, pois querem ser admirados. Nenhum deles admitiria o verdadeiro motivo que os levou a sair perambulando pelas ruas; mas, se há algo certo, é que não se trata de mera diversão. Suponhamos que um homem e uma mulher tenham saído em busca de um parceiro. O homem deseja uma relação de curto prazo e a mulher, de longo prazo. Ao se encontrarem, ambos conversarão sobre variados assuntos aparentemente banais, como gostos pessoais, música, trabalho, arte, eventos etc. Mas, nesse processo, as conversas, o jantar, as bebidas são apenas um pretexto, e o que se tenta, na verdade, é decodificar as palavras do outro, extrair de suas afirmações e de sutilezas de seu comportamento algum dado que lhes seja útil para adivinhar quais são os verdadeiros interesses e condições em jogo, pois só assim descobrem se seus objetivos são compatíveis, se há algo de útil a ser encontrado naquela relação. Assim, no movimento inicial de aproximação acontecerá algo como o seguinte. O homem observa a mulher e pensa: “é até bonita, mas um pouco burra; tem o nariz grande e os dentes tortos; ao menos tem dinheiro, embora um corpo flácido; com todos esses defeitos, e ainda poucos amigos, provavelmente tem uma baixa autoestima, e é provável que consiga mantê-la submissa e ainda continuar com outras amantes”. Parece uma canalhice, mas o cinismo da mulher não perde em nada para o do homem. Ela pensará algo semelhante, porém em função de seus interesses de longo prazo — por exemplo “mesmo sendo bonito, não gosto muito dele, e o sexo é terrível, mas o importante é que ele tem um bom emprego, amigos importantes e prestígio social; então, se tiver um filho, provavelmente conseguirei me casar com ele e, com isso, poderei desfrutar de segurança pelo resto da vida; quando precisar de sexo, bastará procurar um homem de verdade”. Percebamos então que, no processo de se relacionar, ambos mentem do começo ao fim, e guardam muito bem seus segredos para resguardar seus interesses, deixando à superfície apenas um romantismo infantil, no qual só palermas acreditam.

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A investigação um do outro acontece desse modo porque escancarar nossos interesses não funciona bem, visto que somos seres extremamente pérfidos, e não tardaria para que alguém encontrasse um modo de tirar proveito de nossa franqueza. Vejamos o que aconteceria se, digamos, ambos fossem diretos e honestos quanto ao que desejam. A mulher diria: “quero alguém que tenha dinheiro suficiente para me sustentar e que me proporcione segurança; em troca, posso oferecer beleza, carinho, sexo e descendentes; foi para isso que coloquei implantes de silicone, depilei-me, cortei o cabelo, comprei vestidos, fiz exercícios e usei maquiagem; alguém me compra?” Um homem interessado em uma relação de curto prazo, diante de uma afirmação desse gênero, se verá imediatamente tentado a mentir. Porém, caso diga a verdade, revelando que seu interesse é apenas sexo casual, provavelmente levará uma bofetada, e só. Porém, caso decida colocar seus interesses em primeiro plano, fará promessas de amor eterno, dirá ser capaz de satisfazer todas as suas vontades, concordará com todas as condições. Inflará a vaidade da mulher com elogios e mentiras quaisquer, até conseguir levá-la ao motel. Na manhã seguinte, entretanto, a conversa será bem outra. Com razão a mulher se sentirá enganada, mas isso foi culpa de sua estratégia demasiado ingênua. Uma abordagem mais eficiente consiste em exigir provas de comprometimento, não apenas promessas — e isso geralmente acontece na forma de um longo cortejo, que significa muitos presentes, muitas demonstrações públicas de afeto, acordos monogâmicos, casamentos e congêneres. Se a mulher deseja ser comprada, e não apenas usada, nada mais lógico que recusar-se a vender-se fiado. É certo que, nesse assunto, nem homens nem mulheres jamais abrirão o jogo, mas isso é algo pelo qual não deveríamos lamentar.









A. Cancian in O Vazio da Máquina

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