Nossa consciência do mundo é, então, uma representação do mundo, um ponto de vista particular de
um cérebro de um organismo particular. Nossa percepção do mundo não é o próprio mundo: é apenas o
modo como nosso cérebro nos apresenta esse mundo. Essa realidade, portanto, em vez de imediata, é
mediata: está para o mundo assim como um mapa rodoviário está para as estradas. Trata-se de uma
reprodução aproximada, de uma tradução mais ou menos equivalente, não de uma transposição direta.
Claro que nossos corpos, nossos cérebros, nossos processos mentais existem e acontecem
objetivamente. Entretanto, o mundo que se apresenta diante de nós através da consciência, através dos
sentidos, é uma realidade apenas subjetiva, que depende de nós para existir. Por isso ela varia de sujeito
para sujeito. Aquilo que vemos como uma cor azul, outro indivíduo pode ver como uma cor verde.
Aquilo que para nós tem cheiro podre, para abutres presumivelmente tem cheiro maravilhoso. Há
infinitos modos de interpretar as mesmas informações sensoriais, e isso depende de como nosso cérebro
funciona, de como ele está programado para traduzir as informações que recebe por meio dos sentidos.
Assim, a realidade em si mesma não nos é acessível: só podemos apreendê-la de modo indireto, na forma
de representação.
Isso nos dá uma ideia razoável do que queremos dizer ao afirmar que em nossas cabeças há apenas
uma representação da realidade, uma construção limitada feita a partir de informações que não esgotam
tudo aquilo que existe. Nossos sentidos estão programados para captar apenas uma amplitude específica
de informações. Nossos olhos captam um espectro específico de ondas eletromagnéticas, representandoas como cores. Nossos ouvidos captam um espectro específico de vibrações sonoras, representando-as
como sons, e assim por diante. Assim, a princípio, nada impediria que sentíssemos gosto com os olhos ou
que cheirássemos com os ouvidos — bastaria que nossos cérebros estivessem arquitetados para traduzir
a realidade dessa maneira.
Então, a partir de processos físicos materiais, nosso cérebro cria uma espécie de “realidade virtual”
que só existe dentro de nossas mentes, assim como uma televisão cria imagens a partir de componentes
eletrônicos. A atividade de nossos circuitos cerebrais cria nossa consciência e, dentro dela, um mundo
subjetivo. Esse é o nosso modo de existir. Nosso cérebro, através dos sentidos, recebe continuamente
informações do ambiente e, a partir dessas informações, ele elabora uma representação subjetiva da
realidade objetiva.
Assim, em vez de acessar a realidade diretamente, nosso cérebro lê os dados brutos que chegam por
meio dos sentidos e apresenta à nossa consciência um resumo de seus aspectos mais relevantes. É isso o
que cérebros fazem, essa é a sua função. Através dos sentidos, eles se informam sobre a realidade para
saber como guiar os corpos nos quais estão instalados. Naturalmente, quanto melhor for nossa
capacidade de representar a realidade, melhores serão nossas chances de sobreviver, de evitar inimigos,
de encontrar alimento, parceiros sexuais e coisas do gênero, sendo nossa capacidade de raciocinar
apenas um refinamento dentro disso tudo, permitindo-nos distinguir sutilezas. Tais coisas, por sua vez,
estão arquitetadas em função da perpetuação genética. É por isso que sentimos prazer ao fazer sexo, por
isso sentimos dor ao ser agredidos etc.
... Como nosso contato com a realidade acontece por meio dessa ótica parcial, criada por nós mesmos, surgem dois problemas. Primeiro, nossa representação da realidade está comprometida não com a ciência, mas com a sobrevivência. Segundo, como ter consciência disso tudo não é biologicamente relevante, não distinguimos entre uma coisa e outra, e o subjetivo nos parece algo objetivo, como se nossa consciência, nossa representação mental do mundo, fosse o próprio mundo, algo que nos leva a humanizar o que observamos, transpondo nossa representação da realidade, que é interior, para o mundo exterior.
Parece-nos, por exemplo, que as cores existem por si mesmas. Cores parecem-nos uma propriedade intrínseca dos objetos que observamos, parecem algo exterior, independente de nós. Ao observar um objeto vermelho, parece-nos indubitável que aquela cor está no objeto, e não em nossas cabeças. Mas todas as cores são criadas por nosso cérebro a partir da captação de ondas eletromagnéticas. Por isso vemos cores num mundo no qual não há cor alguma. O fato é que não há objetos verdes ou azuis em si mesmos. É nosso cérebro que cria as cores no processo de transformar em imagens mentais a energia luminosa refletida por tais objetos. Ver cores é apenas um modo como representamos a realidade, e elas só existem porque há um cérebro que as cria. Se quisermos uma prova disso, bastará fecharmos os olhos. As ondas eletromagnéticas, por outro lado, são objetivas, pois sua existência é incondicional. Elas existem por si mesmas, havendo ou não um cérebro para captá-las e traduzi-las em imagens mentais. O mesmo vale para coisas como amor, alegria, prazer, dor, angústia etc.: são algo que só existe no contexto biológico de nossos corpos. Assim, tudo o que acontece em nossas consciências tem seu começo e seu fim na própria consciência. Fora da consciência, tudo é inconsciência; fora da vida, tudo está morto. Naturalmente, como somos seres vivos, temos a impressão de que a vida tem um “valor intrínseco”, mas isso é tão ilusório quanto pensar que átomos têm sentimentos.
... Como nosso contato com a realidade acontece por meio dessa ótica parcial, criada por nós mesmos, surgem dois problemas. Primeiro, nossa representação da realidade está comprometida não com a ciência, mas com a sobrevivência. Segundo, como ter consciência disso tudo não é biologicamente relevante, não distinguimos entre uma coisa e outra, e o subjetivo nos parece algo objetivo, como se nossa consciência, nossa representação mental do mundo, fosse o próprio mundo, algo que nos leva a humanizar o que observamos, transpondo nossa representação da realidade, que é interior, para o mundo exterior.
Parece-nos, por exemplo, que as cores existem por si mesmas. Cores parecem-nos uma propriedade intrínseca dos objetos que observamos, parecem algo exterior, independente de nós. Ao observar um objeto vermelho, parece-nos indubitável que aquela cor está no objeto, e não em nossas cabeças. Mas todas as cores são criadas por nosso cérebro a partir da captação de ondas eletromagnéticas. Por isso vemos cores num mundo no qual não há cor alguma. O fato é que não há objetos verdes ou azuis em si mesmos. É nosso cérebro que cria as cores no processo de transformar em imagens mentais a energia luminosa refletida por tais objetos. Ver cores é apenas um modo como representamos a realidade, e elas só existem porque há um cérebro que as cria. Se quisermos uma prova disso, bastará fecharmos os olhos. As ondas eletromagnéticas, por outro lado, são objetivas, pois sua existência é incondicional. Elas existem por si mesmas, havendo ou não um cérebro para captá-las e traduzi-las em imagens mentais. O mesmo vale para coisas como amor, alegria, prazer, dor, angústia etc.: são algo que só existe no contexto biológico de nossos corpos. Assim, tudo o que acontece em nossas consciências tem seu começo e seu fim na própria consciência. Fora da consciência, tudo é inconsciência; fora da vida, tudo está morto. Naturalmente, como somos seres vivos, temos a impressão de que a vida tem um “valor intrínseco”, mas isso é tão ilusório quanto pensar que átomos têm sentimentos.
A. Cancian in O Vazio da Máquina
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