O homem finalmente se torna adulto, abandona seus brinquedos metafísicos e põe os pés no mundo
real. Entretanto, o fato de esse processo ser penoso não o torna digno de qualquer elogio — pois, se a
dor fosse um bom critério, todas as verdades seriam alcançadas pela tortura. Trata-se de uma busca
pessoal, como qualquer outra, ainda que busquemos algo que poderá ser útil a todos, pois o conhecimento
objetivo é válido universalmente. Qualquer indivíduo pode se valer do conhecimento da realidade. Isso
só exige que sejamos honestos, que vejamos o mundo com os olhos, separado de nossas vidas, valores e
crenças, sem interpretá-lo e falsificá-lo em função de uma ótica pessoal.
Mesmo assim, somos necessariamente honestos apenas para com nós mesmos, pois a honestidade
social é uma questão completamente distinta. A integridade só pode possuir valor numa abordagem
pessoal, na medida em que exige de nós uma absoluta honestidade para com nós mesmos, tornando-nos
mais conscientes da realidade. Essa mesma integridade, do ponto de vista social, já não se aplicaria. Em
sociedade, ser completamente honesto equivale à mais completa inconsequência, pois as regras do jogo
social são outras. Mentir para os demais é inevitável. Mentir para si mesmo é em grande parte opcional.
Obviamente, ser esclarecido não se trata de bondade, pois não somos lúcidos como quem faz caridade
aos cegos. Queremos guiar-nos, não guiá-los. Se porventura ajudamos outrem, devemos saber e deixar
claro que não era essa a intenção original — por acaso, essa foi uma consequência indireta e inevitável
de nossa atividade. Não nos cabe exigir gratidão, pois essa tarefa nasce de nossa necessidade pessoal de
andar com os pés no chão. Nisso encontramos a vantagem direta de não tropeçar o tempo todo, pois
conhecemos bem o terreno sobre o qual caminhamos. Não exigimos que os demais sigam nossos passos,
mas, se isso ocorrer, seremos beneficiados indiretamente. Tal fato não nos ajudará em nada diretamente,
porém, ao deixar de ser cegos, os demais ao menos deixarão de ser um estorvo errante. Será mais
improvável que trombem em nós gratuitamente. Sabemos que, no fundo, não temos opção quanto ao caminho que seguimos. Alguns homens são livres
para buscar a verdade, outros não. A integridade seria a ruína daqueles que dependem de ilusões. Isso os
implodiria. O homem que sofre com a verdade precisa mentir instintivamente, dar-lhe os nomes “mal” e
“pecado”. A honestidade passa a ser um vício e a fé, uma virtude. Não vemos nisso uma questão de
escolha. Nós também não conseguimos viver de outro modo. Temos necessidade de ser honestos, como
outros têm de se enganar. Todos os devaneios românticos a respeito da grandeza espiritual dos que
buscam a verdade são ingenuidades: ao acreditar nisso, estaríamos apenas bajulando nossa vaidade
pessoal. Somos honestos pelo mesmo motivo que riscamos a cabeça de fósforos: porque o contrário não
funciona.
Assim como em nossos dedos crescem unhas, em nossas mentes crescem pensamentos. Assim como
nossas unhas são duras, nós somos honestos. Lidamos com o mundo através da intelectualidade porque
somos naturalmente intelectuais. Racionalizamos o mundo porque somos predominantemente racionais.
Essa atividade faz parte de nossas vidas como uma segunda natureza.
Nunca nos ocorre ser compensados pela nossa honestidade, nunca nos passa pela cabeça pedir
aprovação dos demais. Isso nos é espontâneo e inevitável como respirar. Pouco importa se nossas
conclusões estarão de acordo com o paladar do grande público, com as modas intelectuais. Importa
apenas que estejam de acordo com a realidade. Nosso objetivo não é conquistar veneração pública —
caso isso ocorra, será pelo simples acaso de a honestidade estar em evidência por alguma circunstância
passageira.
Como não cultivamos o conhecimento com a finalidade de agradar os demais, nem de convencê-los de
coisa alguma, é certo que não poderíamos competir com os conceitos gordurosos e os confeitos
açucarados dos charlatães que reduzem a filosofia e a ciência a guloseimas e fast-food. Mesmo que
tentemos desmascará-los, nossos apelos à honestidade não serão ouvidos pelos insensatos, e os sensatos
não precisam ouvi-los. Não podemos simplesmente cuspir lucidez e esperar que nos agradeçam pelo
esclarecimento; isso não funciona. Para certas verdades, é preciso estar suficientemente maduro.
Sem dúvida, o conhecimento que denominam “alternativo” — que é um eufemismo para infundado —,
é muito mais livre para inventar-se e fazer-se atraente às vaidades pessoais dos indivíduos, apela muito
mais diretamente às suas necessidades íntimas, pois foi inventado justamente para consolar aqueles que
sofrem com a realidade. Contudo, podemos apenas reconhecer a criatividade desses espertalhões que
lucram com a inépcia alheia.
Claro, talvez se diga que quem pode acreditar no que bem entender é mais “livre” que quem se limita
ao que é passível de fazer sentido. Porém, nada nos causa menos inveja que a plena liberdade de estar
errado. Não julgamos, como crianças, o valor dos alimentos pelo quanto agradam à primeira vista, mas
pela saúde dos corpos que constroem. Similarmente, julgamos o valor de uma ideia pela realidade da
visão que constrói, sendo a lucidez o sinal distintivo da saúde intelectual.
Assim como as vidas de beatos pressupõem a mentira, as nossas pressupõem a verdade, e não
podemos permitir que o erro se infiltre em nossos pensamentos sem que isso seja nossa bancarrota.
Diante da possibilidade de viver de acordo com a realidade, flertar com o erro é como trocar ouro por
quinquilharias. Nenhuma mentira pode possuir mais valor que a verdade pelo simples fato de que ela se
refere a algo que não existe. A filosofia placebo desenvolvida com fins motivacionais não nos interessa:
um pensamento que se vende não merece sequer que lhe dirijamos a palavra; são apenas brinquedos,
muletas para os que não conseguem lidar com a realidade.
A. Cancian in O Vazio da Máquina
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