Pular para o conteúdo principal

O que é o pessimismo?

O pessimismo não se opõe ao otimismo se considerarmos também este em sua acepção vulgar, a saber, que tudo dará certo simplesmente porque existimos, porque o mundo conspira misteriosamente para nosso sucesso e que dele já nascemos merecedores. Nossa vida, que é um copo pela metade, não apenas está meio cheio, como ficará cada vez mais cheio até transbordar de alegria. O otimismo, como se vê, faz com que nossa visão da realidade seja distorcida por uma positividade irracional, e isso o pessimismo não faz, pois a visão que pinta não está distorcida por um comprometimento em ser útil. Para que houvesse uma oposição real entre ambos, seria necessário um pessimismo que distorcesse a realidade negativamente, como dizer que, se rolarmos um dado, este cairá mais vezes no um apenas porque somos destinados ao infortúnio incontornável de uma vida desgraçada. Esse é o tipo de maluquice que o otimismo tem o direito de professar sem nenhuma censura. O otimismo é uma ótica infantil e supersticiosa, que vê todas as coisas parcialmente: para ele, o copo está meio cheio. O pessimismo é lúcido e indiferente, e vê as coisas como são: para ele, o copo não está meio vazio, e sim pela metade. Deveria, portanto, ser chamado de realismo, não de pessimismo. Nessa ótica, o verdadeiro pessimismo equivaleria à afirmação de que o copo está meio vazio, mas essa é uma posição que, por sua palpável incoerência, raramente vemos ser defendida na vida prática, sendo comum a usarmos como piada nas famosas Leis de Murphy — que são o que, de fato, se poderia chamar de pessimismo num sentido oposto ao otimismo. O que se designa pessimismo, então, no dia a dia, não é um pessimismo de fato, no sentido oposto de otimismo, mas apenas uma espécie de realismo impertinente, que se insere nas situações sociais simplesmente para avacalhá-las. Mesmo assim, a rigor, o pessimista não está errado naquilo que diz. Porém, como a verdade muitas vezes é inoportuna, ser honesto torna-se um desserviço, e o pessimismo nos parece algo ruim, não por nos prejudicar diretamente em qualquer sentido, mas porque nos impede de lançar mão da parcialidade que muitas vezes nos facilita a vida.

...

Em defesa do otimismo, muitos poderão alegar que a visão de mundo esboçada pelo pessimismo é somente reflexo de uma personalidade depressiva e neurótica. Claro, não deixa de ser verdade. Porém, estamos discutindo fatos, não qualidade de vida, e o fato é que a interpretação da realidade colocada pelo pessimismo é a única compatível com a realidade que conhecemos através da ciência, e isso pode ser visto como uma comprovação independente da intuição pessimista. Obviamente, o pessimismo não justifica a depressão, mas também não é invalidado por ela — ou a ciência também seria pelas tétricas implicações de suas descobertas. O pessimismo, desde sempre, teve a realidade ao seu lado. Se, para suportar essa realidade, precisamos do otimismo, isso já é uma questão distinta. Em termos de verdade, é ridículo afirmar que há equivalência entre ambas as visões. Diferentemente do pessimismo, o otimismo não tem qualquer respaldo em evidências. Pelo contrário, é amplamente refutado por elas. O pessimista diz: a vida não tem sentido. A ciência encolhe os ombros: realmente não há quaisquer evidências disso. O otimismo continua tagarelando: o importante é ser feliz! Ora, mas quem estava discutindo sobre felicidade? Ao longo dos séculos, os sábios sempre foram pessimistas, e sempre disseram o mesmo — e os tolos, o contrário. Por que deveríamos nos surpreender que apenas os primeiros estivessem certos? Já deveríamos ter adivinhado que há alguma relação bastante profunda entre pessimismo e inteligência, pois ambas as coisas sempre caminharam juntas.






A. Cancian in O Vazio da Máquina

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Lucro líquido em prazer social

Suponha-se que nos sintamos insignificantes perante a sociedade e queiramos mudar essa situação. Como não podemos simplesmente nos dar essa sensação pelo uso da inteligência, teremos de nos manipular indiretamente, e nesse processo há duas abordagens: podemos fazer todo o possível para convencer os demais de que somos importantes, e então acreditar em seu testemunho, ou simplesmente acreditarmos nisso sozinhos por motivos que só existem em nossas cabeças. Ou seja, podemos jogar limpo, como a biologia planejou, isto é, manipular a realidade, tornarmo-nos socialmente destacados, conquistando essa importância indiretamente, por meio de um status refletido na opinião pública, e em função disso nos acreditarmos importantes — ou simplesmente manipular a mente, cultivando crenças errôneas quaisquer que nos proporcionem essa mesma sensação. O resultado é idêntico: a crença de que somos importantes e o lucro líquido em prazer. Pensemos mais a respeito. Qual é a diferença entre ser importante e ...

Epicurismo, Estoicismo e o Niilismo Otimista

     Quando Kant propõe a existência do objeto incognoscível, que é o mundo objetivo exterior impossibilitado à compreensão humana, e chama o objetivo de "númeno", fazendo a separação do subjetivo, ele arma um desenho claro da ideia do que é a realidade real, ou seja, o que ela é em si, do que nós interpretamos sobre o que ela possa ser. Porém, em todo esse desenho há um erro. Porque, se é impossível interpretarmos a realidade como ela exatamente é, como existir qualquer avanço científico? Como manipular a matéria para fazer uma cadeira, por exemplo? Como fabricarmos prédios, naves que vão ao espaço, remédios para hipertensão, soníferos ou qualquer coisa que influencie no mundo material, se não conseguimos compreende-lo em sua totalidade? Embora esse raciocínio evidencie muita imaginação, o mundo objetivo existe como a coisa fora de nós, enquanto podemos separar o que há dentro de nós como o que é subjetivo. Se olharmos para a natureza e admitirmos que ela é péssima porqu...

A razão na existência é absurda - Camus

Eu dizia que o mundo é absurdo, mas ia muito depressa. Este mundo não é razoável em si mesmo, eis tudo o que se pode dizer. Porém o mais absurdo é o confronto entre o irracional e o desejo desvairado de clareza cujo apelo ressoa no mais profundo do homem. O absurdo depende tanto do homem quanto do mundo. Por ora, é o único laço entre os dois. Ele os adere um ao outro como só o ódio pode juntar os seres. É tudo o que posso divisar claramente neste universo sem medida onde minha aventura se desenrola. Paremos por aqui. Se considero verdadeiro esse absurdo que rege minhas relações com a vida, se me deixo penetrar pelo sentimento que me invade diante do espetáculo do mundo, pela clarividência que me impõe a busca de uma ciência, devo sacrificar tudo a tais certezas e encará-las de frente para poder mantê-las. Sobretudo, devo pautar nelas minha conduta e persegui-las em todas as suas consequências. Falo aqui de honestidade. Mas, antes, quero saber se o pensamento pode viver nes...