O pessimismo não se opõe ao otimismo se considerarmos
também este em sua acepção vulgar, a saber, que tudo dará certo simplesmente porque existimos, porque
o mundo conspira misteriosamente para nosso sucesso e que dele já nascemos merecedores. Nossa vida,
que é um copo pela metade, não apenas está meio cheio, como ficará cada vez mais cheio até transbordar
de alegria.
O otimismo, como se vê, faz com que nossa visão da realidade seja distorcida por uma positividade
irracional, e isso o pessimismo não faz, pois a visão que pinta não está distorcida por um
comprometimento em ser útil. Para que houvesse uma oposição real entre ambos, seria necessário um
pessimismo que distorcesse a realidade negativamente, como dizer que, se rolarmos um dado, este cairá
mais vezes no um apenas porque somos destinados ao infortúnio incontornável de uma vida desgraçada.
Esse é o tipo de maluquice que o otimismo tem o direito de professar sem nenhuma censura.
O otimismo é uma ótica infantil e supersticiosa, que vê todas as coisas parcialmente: para ele, o copo
está meio cheio. O pessimismo é lúcido e indiferente, e vê as coisas como são: para ele, o copo não está
meio vazio, e sim pela metade. Deveria, portanto, ser chamado de realismo, não de pessimismo.
Nessa ótica, o verdadeiro pessimismo equivaleria à afirmação de que o copo está meio vazio, mas
essa é uma posição que, por sua palpável incoerência, raramente vemos ser defendida na vida prática,
sendo comum a usarmos como piada nas famosas Leis de Murphy — que são o que, de fato, se poderia
chamar de pessimismo num sentido oposto ao otimismo.
O que se designa pessimismo, então, no dia a dia, não é um pessimismo de fato, no sentido oposto de
otimismo, mas apenas uma espécie de realismo impertinente, que se insere nas situações sociais
simplesmente para avacalhá-las. Mesmo assim, a rigor, o pessimista não está errado naquilo que diz.
Porém, como a verdade muitas vezes é inoportuna, ser honesto torna-se um desserviço, e o pessimismo
nos parece algo ruim, não por nos prejudicar diretamente em qualquer sentido, mas porque nos impede de
lançar mão da parcialidade que muitas vezes nos facilita a vida.
...
Em defesa do otimismo, muitos poderão alegar que a visão de mundo esboçada pelo pessimismo é somente reflexo de uma personalidade depressiva e neurótica. Claro, não deixa de ser verdade. Porém, estamos discutindo fatos, não qualidade de vida, e o fato é que a interpretação da realidade colocada pelo pessimismo é a única compatível com a realidade que conhecemos através da ciência, e isso pode ser visto como uma comprovação independente da intuição pessimista. Obviamente, o pessimismo não justifica a depressão, mas também não é invalidado por ela — ou a ciência também seria pelas tétricas implicações de suas descobertas. O pessimismo, desde sempre, teve a realidade ao seu lado. Se, para suportar essa realidade, precisamos do otimismo, isso já é uma questão distinta. Em termos de verdade, é ridículo afirmar que há equivalência entre ambas as visões. Diferentemente do pessimismo, o otimismo não tem qualquer respaldo em evidências. Pelo contrário, é amplamente refutado por elas. O pessimista diz: a vida não tem sentido. A ciência encolhe os ombros: realmente não há quaisquer evidências disso. O otimismo continua tagarelando: o importante é ser feliz! Ora, mas quem estava discutindo sobre felicidade? Ao longo dos séculos, os sábios sempre foram pessimistas, e sempre disseram o mesmo — e os tolos, o contrário. Por que deveríamos nos surpreender que apenas os primeiros estivessem certos? Já deveríamos ter adivinhado que há alguma relação bastante profunda entre pessimismo e inteligência, pois ambas as coisas sempre caminharam juntas.
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Em defesa do otimismo, muitos poderão alegar que a visão de mundo esboçada pelo pessimismo é somente reflexo de uma personalidade depressiva e neurótica. Claro, não deixa de ser verdade. Porém, estamos discutindo fatos, não qualidade de vida, e o fato é que a interpretação da realidade colocada pelo pessimismo é a única compatível com a realidade que conhecemos através da ciência, e isso pode ser visto como uma comprovação independente da intuição pessimista. Obviamente, o pessimismo não justifica a depressão, mas também não é invalidado por ela — ou a ciência também seria pelas tétricas implicações de suas descobertas. O pessimismo, desde sempre, teve a realidade ao seu lado. Se, para suportar essa realidade, precisamos do otimismo, isso já é uma questão distinta. Em termos de verdade, é ridículo afirmar que há equivalência entre ambas as visões. Diferentemente do pessimismo, o otimismo não tem qualquer respaldo em evidências. Pelo contrário, é amplamente refutado por elas. O pessimista diz: a vida não tem sentido. A ciência encolhe os ombros: realmente não há quaisquer evidências disso. O otimismo continua tagarelando: o importante é ser feliz! Ora, mas quem estava discutindo sobre felicidade? Ao longo dos séculos, os sábios sempre foram pessimistas, e sempre disseram o mesmo — e os tolos, o contrário. Por que deveríamos nos surpreender que apenas os primeiros estivessem certos? Já deveríamos ter adivinhado que há alguma relação bastante profunda entre pessimismo e inteligência, pois ambas as coisas sempre caminharam juntas.
A. Cancian in O Vazio da Máquina
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