O pessimismo não incomoda por sua falsidade, mas por sua integridade cega e inútil, por
nos tirar de nosso pedestal, tornar nosso próprio umbigo relativo e fazer com que duvidemos do altíssimo
valor que atribuímos a nós mesmos e aos nossos sonhos que, não obstante, depois de dissecados,
dificilmente se revelam algo além de uma medida preventiva contra o tédio. O problema é que o
pessimista louva tanto a verdade que se esquece de si próprio e da importância da mentira.
Seja como for, é evidente que nos enganamos o tempo todo, e isso é algo que nos envergonha quando
lançado à cara. Nós que, de tanto fingir, imaginamos ser super-heróis, nos vemos obrigados a reconhecer
publicamente que não podemos voar: só queríamos nos sentir um pouco especiais. Seria doloroso
admitir, por exemplo, que todas as ocupações às quais nos dedicamos são apenas um passatempo para
suportarmos a vida.
No dia a dia, sempre precisamos cultivar um entusiasmo cavalar e ilusões de todos os tipos para
conseguirmos a motivação necessária para manter a vida em seu rumo — em outras palavras, para nos
mantermos alheios ao angustiante vazio da realidade. No fim, é certo que as expectativas lançadas
sempre estão acima do resultado real. Por isso, de tempos em tempos, procuramos esconder nosso
desconcerto através de grandes celebrações em que nossos conhecidos reservam um tempinho para nos
elogiar, e isso faz com que não sintamos vergonha por nos enganarmos o restante do ano.
O que um corredor pensaria sobre si mesmo se, ao vencer as Olimpíadas e estabelecer o novo recorde
mundial, não houvesse celebração alguma? Provavelmente que é um perfeito idiota. Porém, como todos o
aplaudem, sente-se um admirável idiota. Abastecemo-nos em expectativas sempre irreais e, quanto maior
a expectativa, maior a desilusão. E mesmo quando lançamos nossas esperanças para além de nós
mesmos, isso não é senão um meio de garantir que não vivamos o suficiente para testemunhar nossa
inevitável derrota.
No fim, não há qualquer lógica nisso. Precisamos supervalorizar nós mesmos e todos os nossos
objetivos por uma simples questão de autopreservação. A motivação humana sustenta-se nesse tipo de
autoengano. Talvez isso não seja ruim, só é estranho, pois nos obriga a agir como se fôssemos idiotas —
mesmo que esse não seja, todas as vezes, o caso.
Nesse sentido, o pessimista nada mais é que um indivíduo profundamente conhecedor desse lado
patético de nossa humanidade, daquilo que gostaríamos de esquecer sobre nós mesmos, e o aponta sem a
menor discrição, sabendo que não poderá ser refutado.
A. Cancian in O Vazio da Máquina
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