Após a publicação do Breviário em espanhol, dois estudantes andaluzes me perguntaram se era possível viver sem
fundamentación. Respondi-lhes que era verdade não ter encontrado nunca uma base sólida em lugar nenhum e, no entanto, ter
conseguido subsistir porque, com os anos, a gente se habitua a tudo, até a vertigem. E depois não estamos despertos e não nos
interrogamos o tempo todo, sendo a lucidez absoluta incompatível com a respiração. Se estivéssemos, a cada momento,
conscientes do que sabemos, se, por exemplo, a sensação da falta de fundamento fosse ao mesmo tempo contínua e intensa,
cometeríamos suicídio ou cairíamos na idiotia. Só existimos graças aos momentos em que esquecemos certas verdades e isso
porque durante esses intervalos acumulamos a energia que nos permite enfrentar as ditas verdades. Quando me desprezo, digo
a mim mesmo, para recuperar a confiança, que, no final das contas, consegui me manter na existência ou num simulacro de
existência com uma percepção das coisas que bem poucos poderiam suportar.
Emil Cioran
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