A divindade de que se trata é então totalmente terrena. “Procurei durante três anos”, diz Kirilov, “o atributo da minha divindade e o encontrei. O atributo da minha divindade é a independência.” Agora se entende o sentido da premissa kiriloviana: “Se Deus não existe, eu sou deus.” Tornar-se deus é apenas ser livre nesta Terra, não servir a um ser imortal. É sobretudo, naturalmente, extrair todas as consequências dessa dolorosa independência. Se Deus existe, tudo depende dele e nada podemos fazer contra a sua vontade. Se não existe, tudo depende de nós. Para Kirilov, assim como para Nietzsche, matar Deus é tornar-se deus — ou seja, realizar nesta Terra a vida eterna de que fala o Evangelho. Mas se esse crime metafísico basta para a realização do homem, por que lhe acrescentar o suicídio? Por que se matar, abandonar este mundo depois de conquistar a liberdade? É contraditório. Kirilov sabe bem disso quando acrescenta: “Se tu sentes isso, és um czar e, ao contrário de matar-te, viverás no auge da glória.” Mas os homens não sabem disso. Não sentem “isso”. Como no tempo de Prometeu, alimentam em si cegas esperanças. Precisam que lhes mostrem o caminho e não podem prescindir da predicação.
Camus em O Mito de Sísifo
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