Se amar bastasse, as coisas seriam simples. Quanto mais se ama, mais se
consolida o absurdo. Don Juan não vai de mulher em mulher por falta de
amor. É ridículo representá-lo como um iluminado em busca do amor total.
Mas é justamente porque as ama com idêntico arroubo, e sempre com todo
o seu ser, que precisa repetir essa doação e esse aprofundamento. Por isso,
cada uma delas espera lhe oferecer o que ninguém nunca lhe deu. Em todas
as vezes elas se enganam profundamente e só conseguem fazê-lo sentir
necessidade dessa repetição. “Por fim”, exclama uma delas, “te dei o amor.”
Não surpreende que Don Juan ria dela: “Por fim? Não” — diz ele —, “outra
vez.” Por que seria preciso amar raramente para amar muito?
Albert Camus em O Mito de Sísifo
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