O primeiro desses problemas é a baixa produção de alimentos, pois temos um agronegócio voltado para a exportação. Dessa forma, não compensa para eles produzir alimentos para o mercado interno quando podem cultivar soja para vender em dólar no exterior. Isso faz com que a safra de alimentos seja continuamente baixa, gerando uma pressão inflacionária constante nesse mercado.
Outro problema é a falta de estoques públicos. O governo possui um órgão, a Conab (Companhia Nacional de Abastecimento), criado para manter um certo nível de estoque de produtos como arroz, feijão etc. Assim, em períodos de safra baixa — seja por crise econômica, problemas climáticos ou qualquer outro fator —, o governo teria alimentos para disponibilizar no mercado e equilibrar os preços. Temer e Bolsonaro extinguiram os estoques de alimentos sob o argumento de economia e rigor fiscal, e Lula prometeu repô-los, mas ainda não o fez.
O terceiro problema, o mais sério e estrutural, com solução viável apenas no longo prazo, é o caráter oligopsônico do mercado varejista no Brasil. Não sei se você conhece o conceito de oligopsônio, mas explico: assim como os termos "monopólio" e "oligopólio" se referem a mercados em que uma ou poucas empresas vendem mercadorias, "monopsônio" e "oligopsônio" designam mercados nos quais uma ou poucas empresas compram mercadorias. O mercado de alimentos no Brasil é um desses casos: temos muitos produtores de alimentos, especialmente ligados à agricultura familiar, mas a maioria deles não vende sua produção diretamente ao consumidor final (nós). Em vez disso, vendem para grandes armazéns vinculados a grupos varejistas, como Carrefour e Pão de Açúcar.
Como o número de compradores nesse mercado é reduzido, eles impõem aos produtores o preço que desejam pagar. E os produtores, na maioria das vezes, são obrigados a aceitar, pois, se não venderem para esses armazéns, correm o risco de ver seus produtos perecerem, já que nem sempre têm condições de negociar com outros compradores ou de comercializar em feiras.
Esses oligopsônios, portanto, controlam o mercado de alimentos no Brasil e determinam o preço dos produtos. Nem sempre a safra é baixa, mas as grandes empresas utilizam seus estoques para aumentar sua margem de lucro, garantindo um ganho financeiro e se compensando por crises passadas (e até futuras).
Enquanto esse último problema não for resolvido, nunca teremos um controle efetivo dos preços dos alimentos no Brasil. No entanto, a Conab pode ajudar a amenizar essa situação, pois, ao comprar diretamente dos produtores, reduz o poder de barganha das grandes redes varejistas. É preciso cobrar do governo a recomposição dos estoques de alimentos, mas acho improvável que Lula tome essa medida, especialmente enquanto mantiver Haddad no Ministério da Fazenda.
É isso. Os jornais, na maioria das vezes, falam em baixas safras porque explicam a inflação apenas com base na relação entre oferta e demanda. Também afirmam que "a economia está aquecida" — ou seja, que há muita gente comprando, como se a população estivesse nadando em dinheiro. O governo gosta desse discurso porque cria a impressão de que a economia vai bem, mas, na prática, o objetivo é justificar o aumento da taxa de juros e a consequente transferência de dinheiro para os bancos. Afinal, se há muita gente comprando, isso geraria inflação, pois a oferta não acompanharia a demanda. A elite não dorme no ponto.
Leon K. Nunes - Doutor em Ciências Sociais pela UFRN.
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