Conservando marcas da sociedade colonial escravista, patriarcal e patrimonialista, a
sociedade brasileira é marcada pelo predomínio do espaço privado sobre o público e, tendo o
centro na hierarquia familiar, é fortemente hierarquizada em todos os seus aspectos: nela, as
relações sociais e intersubjetivas são sempre realizadas como relação entre um superior, que
manda, e um inferior, que obedece. Isso explica o fascínio pelos signos de prestígio e de poder,
que aparece, por exemplo, na manutenção de criadagem doméstica cujo número indica
aumento de status, ou no uso de títulos honoríficos sem qualquer relação com a possível
pertinência de sua atribuição, o caso mais corrente sendo o uso de “Doutor” quando, na
relação social, o outro se sente ou é visto como superior, de maneira que “doutor” é o
substituto imaginário para os antigos títulos de nobreza.
Na sociedade brasileira, as diferenças e assimetrias são sempre transformadas em
desigualdades e estas em inferioridade natural (no caso das mulheres, dos trabalhadores, dos
negros, índios, migrantes, idosos) ou como monstruosidade (no caso dos lgbt+), reforçando a
relação de mando e obediência. O outro jamais é reconhecido como sujeito nem como sujeito
de direitos, jamais é reconhecido como subjetividade nem como alteridade. As relações, entre
os que julgam iguais, são de “parentesco”, isto é, de cumplicidade; e, entre os que são vistos
como desiguais, o relacionamento toma a forma do favor, da clientela, da tutela ou da
cooptação, e, quando a desigualdade é muito marcada, assume a forma da opressão.
Em suma, micro-poderes capilarizam em toda a sociedade de sorte que o autoritarismo da e
na família se espraia para a escola, para as relações amorosas, o trabalho, o comportamento
social nas ruas, o tratamento dado aos cidadãos pela burocracia estatal, e vem exprimir-se,
por exemplo, no desprezo do mercado pelos direitos do consumidor (coração da ideologia
capitalista) e na naturalidade da violência policial. Compreende-se, então, porque em nossa
sociedade há a recusa tácita (e às vezes explícita) de admitir a igualdade formal ou o mero
princípio liberal da igualdade jurídica: para os grandes, a lei é privilégio; para as camadas
populares, repressão. A lei não exprime o polo público do poder e da regulação dos conflitos,
nunca exprime direitos e deveres dos cidadãos porque a tarefa da lei é a conservação de
privilégios e o exercício da repressão. Por este motivo, as leis aparecem como inócuas, inúteis
ou incompreensíveis, feitas para serem transgredidas e não para serem transformadas. O
poder judiciário é claramente percebido como distante, secreto, representante dos privilégios
das oligarquias e não dos direitos da generalidade social;
A ausência do reconhecimento dos direitos leva a conceber a cidadania como privilégio de
classe, uma concessão da classe dominante às demais classes sociais, podendo ser-lhes
retirada quando os dominantes assim o decidirem e por isso, no caso das classes populares, os
direitos, em lugar de aparecerem como conquistas dos movimentos sociais organizados, são
sempre apresentados como concessão e outorga feitas pelo Estado, dependendo da vontade
pessoal ou do arbítrio do governante mantê-los ou retira-los por meio de “reformas
trabalhistas”.
Os conflitos sociais são considerados sinônimo de perigo e desordem, recebendo três
respostas: a repressão policial e de milícias privadas para as camadas populares, a repressão
militar para movimentos políticos de contestação, e, no espaço institucional, o desprezo condescendente pelos opositores bem como o uso do poder judiciário para impedi-los de agir
ou desacreditá-los, graças aos meios de comunicação, que não só monopolizam a informação,
mas também difundem a ideia de que o consenso é a unanimidade e de que a discordância é
ignorância, atraso, conspiração e perigo.
As lutas pela posse da terra desencadeiam a criminalização de seus líderes, cujo assassinato
permanece impune; os trabalhadores do agro-negócio são conhecidos como “boias-frias”
porque, iniciando a jornada de trabalho de madrugada, sua refeição (quando têm o que comer)
se reduz a um punhado de arroz e ovo frios. Os acidentes de trabalho, tanto no campo quanto
na cidade, são imputados à incompetência e ignorância dos trabalhadores e não às péssimas
condições de trabalho. A população das grandes cidades se divide entre um “centro” e uma
“periferia”, bairros afastados nos quais estão ausentes todos os serviços básicos (luz, água,
esgoto, calçamento, transporte, escola, atendimento médico), fazendo com que a jornada de
trabalho dure até 15 horas. No caso do “centro”, está naturalizada a oposição entre os
chamados “bairros nobres” e os bolsões de pobreza, cortiços e favelas.
O racismo não é percebido como tal e assegura a naturalidade das exclusões sociais e culturais
bem como a desigualdade salarial, pois, os negros são considerados infantis, ignorantes,
safados, indolentes, raça inferior e perigosa; e os indígenas, em fase final de extermínio, são
considerados irresponsáveis (isto é, incapazes de cidadania), preguiçosos (isto é, mal adaptáveis ao mercado de trabalho capitalista), perigosos, devendo ser exterminados ou,
então, “civilizados” (isto é, entregues à sanha do mercado de compra e venda de mão-deobra, mas sem garantias trabalhistas porque “irresponsáveis”).
O machismo não é percebido como tal seja na vida doméstica de opressão das mulheres seja no
espaço do trabalho, onde a desigualdade salarial entre homens e mulheres é considerada
natural; e as mulheres que trabalham (se não forem professoras, enfermeiras, assistentes
sociais ou empregadas domésticas) são consideradas prostitutas em potencial e as prostitutas,
degeneradas cujo cortejo aumenta com a chegada da perigosa multidão de outros perversos
sexuais, que devem ser prontamente eliminados – os lgbtqi+.
A desigualdade salarial entre homens e mulheres, entre brancos e negros, a exploração do
trabalho infantil e dos idosos são consideradas normais. A existência dos sem-terra, dos sem-teto, dos desempregados é atribuída à ignorância, à preguiça e à incompetência dos
“miseráveis”. A existência de crianças sem infância é vista como “tendência natural dos
pobres à criminalidade”. Os acidentes de trabalho são imputados à incompetência e
ignorância dos trabalhadores. As mulheres que trabalham (se não forem professoras,
enfermeiras ou assistentes sociais) são consideradas prostitutas em potencial e as prostitutas,
degeneradas, perversas e criminosas, embora, infelizmente, indispensáveis para conservar a
santidade da família.
Esse autoritarismo faz com que o neoliberalismo nos caia como uma luva.
Trecho do texto "Democracia e Educação como Direito"/ Introdução do livro: "A demolição da construção democrática da educação no Brasil sombrio" - Marilena Chaui.
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