A realidade muitas vezes é totalmente diferente daquilo que imaginamos ou desejamos. Questões muito complexas as vezes têm respostas simples, as vezes não, depende ou especificamente da complexidade da resposta ou da formulação da pergunta. Muitas coisas reais passam batido por nós, ou porque são óbvias demais, ou porque excedem nossa compreensão. Contudo, não deveríamos desanimar caso nossas expectativas não forem correspondidas. Ora, a verdade está sempre acima do que achamos sobre ela, como nos explica a ideia de númeno, de Kant, ou o Princípio da Incerteza, de Heisenberg, e tal nos é indiferente. Não acho que seja possível reunir todos os argumentos acerca da inexistência de Deus, porque surgem o tempo todo novos questionamentos filosóficos que precisam de novas abordagens. Falar sobre o tema Deus é um choque, porque mexe com algo crucial: o sentido da vida. Excluindo a possibilidade da existência de um deus, e portanto o querer de tal ser, tal sentido passa a ser encarado de maneira subjetiva, possibilitando mais liberdade. A maior parte dos cristãos ocidentais, que vivem uma cultura rica de abastecimento de recursos para a manutenção da vida, principalmente a falta de guerras de grande porte, o teor ideológico é mais fraco que na antiga Idade Média ou no atual Oriente Médio, onde Deus precisaria e precisa ter um caráter agressivo, ganhando protagonismo no modo como a população vive, como um pretexto para lidação dos problemas. Para a maioria dos ocidentais, principalmente na América Latina, Deus sobrevive no imaginário como um símbolo, nada mais que isso. Ninguém ao acordar pede ao Criador que lhe faça uma torrada, usamos a torradeira, ou alguma tecnologia de manipulação do fogo. Se temos dores de cabeça, usamos medicamento específico, se o carro quebra, não oramos para que Deus concerte o carro por milagre, simplesmente o consertamos ou levamos o problema para ser resolvido por especialistas. Esse é o modo de operação de todos os cristãos e todas as pessoas em geral. Embora orem, as coisas não acontecem de forma mística, surgidas do nada. Nesse caso, a oração sempre aparece na cultura para casos de intervenção divina: ou porque queremos ajuda ou para o cumprimento de algum tipo de mantra. Vale ressaltar que em países relativamente excluídos da comunidade internacional, por exemplo o Irã, que teve a revolução islâmica de 1979, e alguns demais do Oriente Médio, que são afetados diretamente pela ganância imperialista aos poços de petróleo, correspondentes na região a 3/4 em todo o mundo, o pretexto ideológico sobre Deus como causa desesperada pode justificar apelos mais severos por parte da população, como a espera de um milagre literal: uma surpresa poderosa que mude radicalmente a vida desprovida de conforto, mais por não ter meios para fugir do problema do que por capricho, do que por opção. Essa lógica também vale para países afetados pelo capitalismo pesado, que sofreram com o problema histórico da colonização, como os países africanos, por exemplo.
Existe um tabu a respeito de dialogar sobre crenças que deve ser revogado. "Tudo é discutível", afirmavam os iluministas. Essa afirmação é válida hoje e sempre será. Colocar qualquer assunto em xeque é possibilitar sua observação, sua conclusão de veracidade: se é real ou imaginária - se estamos certos ou errados. Estamos tão desesperados por estar certos? Se sua vida está pautada numa mentira que você acha suficiente e a aceitação dessa mentira significa apelar para a ignorância, fechar os olhos e viver como um tonto, feche esse vídeo e vá fazer qualquer outra coisa. Porém, se a curiosidade lateja ao ponto de se permitir ver outros pontos de vista, então seja bem vindo à reflexão.
Se não temos evidências da existência de Deus que, por sua vez, só podem ser materiais, exatamente porque não existem evidências imateriais, por que cogitar sua existência? Partindo do princípio de que Ele é uma invenção, isso bastaria para justificar a ausência de evidências. A questão é, como chegamos a cogitar a existência de algum deus? Ausência de evidência não é evidência de ausência, contudo, partindo da ideia de que só existe aquilo que descobrimos, como afirmava Carl Sagan, chegaremos a óbvia conclusão de que se não descobrimos ainda alguma coisa, não sabemos que existe, porque embora possa existir mesmo sem sabermos, nada podemos afirmar. Logo, qualquer deus ainda não foi descoberto, porque não temos evidências de sua existência além de conjecturas. Nesse caso, quem foi o primeiro precipitado que berrou "Deus existe" e por qual motivo fez isso? Não existindo evidências materiais para assumir a hipótese tanto de Deus como de imaterialidade, dado que evidências sobre coisas imateriais são impossíveis por definição, supor que tais ideias são frutos de mentiras não parecem distantes da realidade. A história do pensamento científico afirma que as primitivas ideias da existência de um Criador ou Moldador, surgiram para explicar fenômenos naturais, doenças, estrelas no céu, ou seja, qualquer coisa até então inexplicável. A história mostra que a ideia de pensarmos existir um ser superior que originou tudo ou um mundo sobrenatural é uma tentativa do homem pré-histórico de explicar o que ele ainda não entendia. Isso se perpetuou até as antigas civilizações, ao que afirmou Hipócrates: "Os homens têm a epilepsia como divina, simplesmente porque não a entendem. Mas se chamarem tudo o que não entendem de divino, então não haverá fim das coisas divinas". Explicações como essas foram romantizadas até o iluminismo, quando o mundo começou a difundir ideias exaltando a razão sobre a fé de maneira mais incisiva. Desse modo, entendemos o porquê mesmo sem qualquer evidência, a ideia de deus ganhou um caráter logicamente verídico, porque sustentava as respostas que o homem não podia compreender por inteiro, de maneira testável, por não ter tecnologia para isso. Por exemplo, ao contemplar a Lei de Causa e Efeito, impregnada no Tempo, supor que existisse um Criador para tudo seria o mais aparentemente sensato. No momento em que não existia ciência para estudar o Tempo e como as coisas se formavam e se formam no espaço, é compreensível interpretar a realidade de uma forma que não corresponda a ela de fato. O avanço da ciência só ganhou um caráter relativamente moderno no século 19. Só com a queda do puro racionalismo, com o empirismo protagonizado por Galileu Galilei, David Hume, é que entendemos, na Idade Moderna, que para uma hipótese ser validada ela precisa ser testada. Logo, para a hipótese Deus, o método científico basta para verificar sua falseabilidade, pelo motivo que tal hipótese está impossibilitada ao teste, por isso a estrita apelação para argumentos lógicos, racionalistas, ao invés de empiristas. Ainda assim, teorias que misturam filosofia e ciência se proliferam no âmbito acadêmico, insistindo no princípio de racionalismo puro com uma dosagem medida de ciência, como o "Princípio Cosmológico Antrópico", do físico inglês Brandon Carter, 1974, ou a "Hipótese de Gaia" de 1972, proposta por James Lovelock, ambas afirmando noções de preservação do Cosmo como um arranjo para a vida, como se a vida fosse comum no universo, quando nem sequer sabemos se existe vida além da nossa. Em ideias parecidas exclui-se muitas coisas em detrimento de outras e Deus aparece como um Design Inteligente. Isso é um erro, pois para observar a realidade o todo é que deve valer, pois sua análise de probabilidade matemática garante a assertividade da nossa interpretação objetiva. Não podemos construir uma argumentação baseada nas observações que se encaixam convenientemente na nossa lógica simplesmente porque queremos que assim seja.
Se colocarmos o empirismo como fator determinante para solucionar o problema da existência de Deus, paramos por aqui, porque concluiremos que Ele não existe, por ser impossível testar sua hipótese, exatamente por ser demasiadamente absurda para caber em um teste. Porém, se usarmos o racionalismo puro, que é claramente falho para determinar aquilo que é real, podemos alongar a discussão, pontuando os erros lógicos dos adjetivos de infinitude a qual deus dispõe, ou mesmo os princípios que lhe caracterizam. Observaremos que mesmo usando ideias apenas lógicas, a questão sobre Deus ser real entra no estado de absurdo, por ser exatamente ilógica, dado o uso necessário de falácias para se manter aparentemente viva. O que quero dizer é que, em algum momento ao argumentar positivamente sobre a possível existência de Deus, o argumentador apelará para falácias, o que tornará todo o raciocínio obsoleto, fazendo de seu esforço inútil. Se a existência de Deus for desconsiderada por argumentos cruciais, a possibilidade de crédito para o questionador, para futuros argumentos a favor de sua existência serem falsos, aumenta muito. De qualquer forma, tudo que existe precisa ser provado por meio de testes, por mais aparentemente lógico possa parecer uma hipótese. Deus, qualquer deus, ou o mundo sobrenatural, precisam ser descobertos, do contrário, não existem. Estou certo de que refletir sobre a existência de qualquer deus é uma causa de fácil resolução, assumindo francamente certos pontos e desconsiderando coisas e questões sem sentido, sem tentar reavivar argumentos perdidos, evitando andar em círculos. Superando essa questão, poderemos refletir sobre o que realmente importa: as questões em torno do niilismo e seu efeito no emocional humano.
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