Sêneca escreve: ..."vêm aos seus professores para desenvolver, não suas almas, mas sua perspicácia. Assim a filosofia, o estudo da sabedoria tornou-se, filologia o estudo das palavras".
A filosofia, que é a base para todas as ciências, vem progressivamente se separando da ciência, influenciando frases como a de Stephen Hawking, que afirma que ela está morta. Isso porque a história da filosofia demonstra que todas as ciências, desde a matemática até a psicologia surgida no século 19, vêm separando-se do núcleo filosófico e ganhando protagonismo como assuntos específicos durante períodos do tempo, deixando pouco a pouco a filosofia como um mero estado de reflexão, dando margem para aventureiros falarem qualquer breguice non-sense e usar a filosofia como pano de fundo para receberem crédito e aceitação, num estado onde não conseguimos definir claramente quem é sábio de fato de quem é pedante. É fácil fingir usando uma boa retórica e raciocínios rasos. Isso era um problema antes, principalmente com os sofistas, e é um problema hoje. Um caso famoso é o do Olavo de Carvalho, um astrológo, negador científico, que mentia, usava falácias, afirmava coisas mais estúpidas e exageradas, se intitulando como filósofo. Ele teve inúmeros adeptos e morreu porque não tomou a vacina da covid, negando sua eficácia. O que devemos pensar é: Para quê nos serve a verdade? A filosofia não pode se basear no que achamos sobre a realidade, o crédito que damos a um argumento também não pode se basear na sua retórica, mas no seu conteúdo. Você lê um ensaio com uma argumentação totalmente lógica de que o ser humano consegue viver num eremitério, na solidão completa, e se convence disso. Daí você tenta puxar algum fato histórico em que isso não terminou em tragédia ou loucura, e não acha. O raciocínio falhou. Falhou porque não funciona no mundo real, embora seja aparentemente lógico. Então Nietzche errou em sua obra ao romantizar a solidão? Errou feio. Mas, como algo pode ser estritamente lógico e ao mesmo tempo falível? Simples: o mundo não pode ser explicado pela ideia em si, mas pelas coisas funcionais, empíricas. O velho trabalho aristotélico superando o platônico. Há uma explicação clara em o porquê da lógica grega exaltar a matemática, é porque para pensar certo é preciso saber pensar certo, e isso ocorre pela prática da aplicação da ideia no mundo material, com o uso, claro, da matemática. Essa é a drástica diferença entre uma pessoa realmente inteligente de um pedante. Por isso, alguém realmente inteligente sabe matemática básica, ponto. Na matemática não há como fingir, porque não tem margem para o erro, ou você sabe ou não sabe. Isso acontece com as matérias das famosas "exatas", onde máscaras de erudição que te escondem são quebradas com cálculos simples. Não estou falando que só as pessoas que estudam exatas são inteligentes, a genialidade está em todas as áreas do conhecimento. Porém, alguém que não consegue conceber vários raciocínios lógicos de verdade, raramente vai usá-los cotidianamente sem o auxílio de alguma falácia, até porque pensar corretamente vai parecer cada vez mais difícil. Por isso Stephen Downes viu a necessidade de compilar os argumentos falaciosos no seu Guia das Falácias, para que as falácias, pelo menos as mais comuns, pudessem ser classificadas para serem evitadas. O problema em si está no fato de falarmos sobre uma coisa sem termos conhecimento específico sobre ela, sem ao menos entender como ela funciona realmente. Um dia conversei com um filósofo e ele afirmou que o Tempo nada mais é que uma concepção de infinitude. Eu não entendi muito bem sua conclusão. Só depois de ter lhe explicado que o Tempo é material, o tecido espaço-tempo, e tê-lo visto sorrir, desconfortável, é que entendi que ele não entendia como a realidade funcionava, embora logicamente estivesse com uma noção razoável de que o tempo é uma concepção de infinitude, como uma passagem linear dos acontecimentos que garante a marcação dos períodos. Esse erro crucial do conhecimento apenas lógico e do conhecimento estritamente prático, e que é até comum, valida o empirismo para explicar os fatos reais, e serve para erradicar os erros de interpretações quanto a realidade objetiva. A grosso modo, é necessário entender que nem sempre a razão ao qual estamos habituados é aplicável, nem tampouco está necessariamente correta. Olhar para o mundo objetivo e as evidências sobre ele de maneira descontruída, nos ajuda a colocar nossa razão do lado correto, fazendo com que ela parta das evidências e não das nossas cabeças de maneira prévia. Isso evita preconceitos e, não menos importante, constrangimentos. O modo de pensar científico tem esse princípio. O problema da ignorância está estritamente com a necessidade do homem de se ater primeiramente a uma boa narrativa, e segundo, a fatos extraordinários. Ou seja, quanto mais uma narrativa é extraordinária, mais ela terá repercussão. E daí temos um boato, afinal, o princípio é o mesmo, e por isso tantos boatos sobre tantas coisas, ovnis, fantasmas, milagres, lendas das mais variadas que quanto mais parecem absurdas, mais parecem aceitáveis. É na ideia de explicar alguma coisa ao invés de nada, quando não sabemos exatamente do que se trata, que inventamos explicações simples do funcionamento do universo, sejam coisas básicas como a chuva, coisas intermediárias como eclipses e até pseudoargumentos sofisticados de Design Inteligente que supostamente servem para explicar a existência de alguma entidade divina. Embora a coisa pareça convincente, se trata apenas de uma bela coisa vinda da nossa imaginação.
Não é difícil verificar esse padrão no conhecimento difundido ao longo da história, basta ler alguns livros didáticos de história. Isso era sabido pelos Iluministas, que afirmavam que a razão é a solução de todos os problemas. Eles afirmavam que o verdadeiro mau era a ignorância, pois por trás de todo ato escuso e desumano, estava a ignorância. Ela era a causa de não saber se colocar no lugar do outro e ter empatia, o que se daria de um processo natural de não se conhecer a si mesmo e, portanto, desconhecer o outro. A razão é o que nos diferencia das outras espécies. Se uma espécie não usa a razão e é violenta, isso é comum porque o pensamento discursivo que ela não tem, a impossibilita de contornar os problemas de maneira que haja um bem comum a todos. Tendo a razão essa capacidade de manipulação, a qual nossa espécie dispõe, desenvolvemos comportamentos éticos que favorecem o bem comum e por isso concebemos algo como o termo: igualdade.
Há ainda um longo caminho para vermos um mundo totalmente além do véu da ignorância, mas podemos ter certeza que as maiores mentes estão estudando com afinco até a exaustão para que a realidade se torne totalmente clara para nós. Devemos ter calma, a ciência é muito recente. Porém, os progressos dela estão apontando para coisas realmente grandiosas, como a possível viabilidade de colonizar Marte, a verificação mais detalhada do universo com o telescópio James Webb, o que nos dará explicações precisas de como o universo surgiu e diversos outros mistérios, a possível imortalidade até 2030 com o uso de nanorobôs, que é um processo comum da revolução industrial da Inteligência Artificial, que está acontecendo nesse exato momento. Vale ressaltar que essa etapa da revolução industrial, que poderá ser a última, mas com certeza é uma das finais, poderá acabar com todos os empregos ou a maioria, o que causará decadência da qualidade de vida e possíveis revoltas sociais. Porém, tudo poderá ser contornado com programas de assistência social, como o projeto de renda mínima, que já está em uso em diversos países, incluindo o Brasil. Mas, o mais importante é que a ciência avança a passo largos e ela, mais que qualquer outra coisa, já provou ser digna de crédito, principalmente pelo interesse que ela tem em ser honesta, dado a claridade e rigorosidade com que trata o que aborda. A questão é: quão alheio você está do progresso científico e quais dos seus interesses estão alinhados com esse progresso?
Se passarmos essa fase de crise e não morrermos num desastre nuclear baseado em conflitos de interesses de nações capitalistas, poderemos, quem sabe, reconhecer o quanto o sistema capitalista trava a ciência como um muro que impede um bebê de se locomover para frente, desperdiçando tantas mentes brilhantes na corrida da sobrevivência. Quantos gênios tiveram que morrer na África porque nem sequer conseguiram chegar na fase adulta por falta de coisas básicas como alimento? Tudo isso para manter aquele herdeiro inútil que passa todos os seus dias jogando videogame? Manter esses privilégios é patético, tão patético quanto destinar apenas 1% de verba estatal para a NASA e o resto para armamentos. Mas ainda há um longo processo a ser discutido e refletido, desde como a mídia manipula nossos gostos, nos adestrando cada vez mais no consumismo até a completa alienação, até a percepção de que somos produtos inautênticos pensados por alguém, para nos sentirmos em casa na nossa tribo convidativa.
Matheus Cirilo
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