É difícil pensar e admitir que o trabalho é fruto da escravidão, que as sociedades mais inteligentes afirmavam que trabalhar é um castigo, um fardo para pessoas inferiores, ou que esse mesmo pensamento seja real hoje em dia, mas não na classe pobre, mas na classe rica, que por meio da mídia influencia a massa trabalhadora a sempre trabalhar mais, porque segundo ela o trabalho "dignifica o homem". Porém, ao observamos a vida de pessoas ricas que superam a classe média, vemos uma vida de completa ociosidade, tempo livre e prazer. Enquanto a vida dos pobres é uma corrida desesperada pela sobrevivência, a vida dos ricos é um desfrute luxuoso que afirma uma vida superior baseada na diferença de conforto. Eles são os protagonistas da vida e a grande maioria das outras pessoas são as coadjuvantes e figurantes. A influência da forma de vida dos ricos é tanta, que os pobres ao conseguirem ascender de classe social, o que é raro, ao invés de lutar para que outros também consigam alcançar esse pódio, abraçam a ideia de meritocracia e acabam competindo com quem não tem nada, numa luta desigual, criando um caráter soberbo e de asco à pobreza. Ao abrirmos algum livro de história para entendermos como funciona a sociedade, deixamos passar inúmeros detalhes que deixam claro que ricos maquinam as veredas da sociedade para controlar a vida das pessoas no intuito de sugá-las pelo trabalho e influenciá-las a deixar-se seduzir pela ganância. Um dos destaques desses detalhes observados nos períodos históricos é visto no estudo da propaganda, na obra de Edward Bernays, que usou a propaganda americana para controlar o impulso de compra, incutindo gostos nas pessoas. Ele foi a mente que pensou no lugar de uma geração de mentes jovens, usando o apelo da psicologia da época, tirando a autonomia da autenticidade do povo e controlando-o em prol de lucro.
Trabalho vem do latim "tripalium", que significa "instrumento de tortura". Você nunca pensou o porquê de ninguém romantizar o trabalho até a revolução industrial no século 18? É porque o ato de trabalhar era vergonhoso, pois só os escravos, que eram considerados não-humanos, trabalhavam em sua grande maioria. O esforço do conhecimento, possibilitado apenas pelo ócio, era o luxo que desde as grandes civilizações antigas remontava a nobreza, enquanto o trabalho braçal era digno de pessoas inferiores. Quando a Inglaterra ascendeu economicamente, usando o pagamento de um salário mal remunerado, passou a ser contra a escravidão, que inclusive influenciou por pressão na lei Eusébio de Queirós de 1850, que proibia o tráfico negreiro. A noção errada que temos é que a sociedade, por acumular estudo pelo avanço científico, ficou mais inteligente e com isso mais virtuosa, passando a condenar a escravidão por causa da ética. Porém, os documentos históricos nos deixam claro que a escravidão foi desmotivada porque os senhores de escravos gastavam mais com os escravos do que com mão de obra barata e facilmente substituível, mão de obra jovem e renovável, ao qual a indústria capitalista da época propunha. O que nos leva a considerar que o trabalho assalariado passou a ser o substituto do trabalho escravo. Um escravo custava uma soma considerável, era uma propriedade como qualquer outra e só trabalharia até quando tivesse capacidade, se não morresse em pouco tempo por doenças, que requeriam tratamento, muitas vezes não custeados. Um escravo comia, se vestia. Até os instrumentos de tortura escrava custavam dinheiro. O gasto de um escravo e sua manutenção diária acabavam sendo maiores do que apenas uma remuneração básica dada pelas fábricas na metade da revolução industrial. Era descoberta uma forma de colocar gente para trabalhar para você de maneira mais barata: salário mínimo sem direitos trabalhistas. Sem contar que existia um temor incessante dos escravistas, motivado pelas revoltas escravas em todos os ambientes. Revoluções grandes como a Francesa de 1789, a do Haiti de 1791, demonstravam as classes dominantes, que normalmente eram escravocratas, que eles poderiam ser massacrados, desonrados e substituídos na escala de poder de uma nação.
Se você argumentasse no século 18 a um nobre, que a vida do Imperador e de um engraxate qualquer eram iguais na mesma escala de importância, receberia um riso sarcástico e um contra-argumento de que além do Imperador ser mais útil à nação por ser uma figura pública, ele era uma autoridade instituída por Deus, pelo seu "direito divino" de governar, porque o monarca era um representante de Deus na terra, comprovando a ideia cristã que permeava a cultura da época, na qual o teólogo Jacques Bossuet era um dos principais teóricos. Ao contrário da hierarquização da vida das pessoas pregada pelo cristianismo, o apelo a autoridade, existia a forte ideia dos iluministas para rivalizar, que pregava que o mal do mundo era a ignorância, e que o uso da razão era a solução de todos os problemas, pois ela iluminava o mundo que estava nas trevas pela brutalidade e ingenuidade da ignorância, refletida no forte pedantismo, autoritarismo e violência física das massas. Os gregos antigos tinham uma ética exemplar para o mundo inteiro e poderiam influencia-lo a progredir no quesito civilização, sofisticando a ética de diversas sociedades, como aconteceu com a sociedade romana que passou a imitá-los, embora de forma medíocre. Não que haja algum apelo aqui com uma ideia de exaltação de uma única cultura, parecida com a ideia do Destino Manifesto de John O'Sullivan, 1845, que pregava que os Estados Unidos são eticamente e culturalmente superiores, por causa de ser a nação instituída por Deus na terra, portanto deveriam guiar o mundo. Não. Os gregos exaltavam a razão acima de tudo, do contrário dos Estados Unidos, que exaltam o cristianismo e a propriedade privada acima de tudo. É por isso que os gregos poderiam ter contribuído mais com a ética universal, através da exaltação do uso e cultivo da razão, como os iluministas franceses, que conseguiram fazer isso pelo movimento, influenciando toda uma geração que nascia. A ética iluminista acabou sendo adotada pela ciência, que se configurou no século 19 e se divulgou no "movimento de divulgação científica no século 20".
O rico que desfruta do prazer da vida no seu ócio precioso, precisa difundir a ideia de que o trabalho dignifica o homem, porque ele simplesmente deseja continuar cultivando seu ócio, e com isso seu lazer, seus estudos, no geral, sua felicidade. Enquanto isso, pessoas influenciadas por essa ideia continuam como mão de obra barata e especializada, que gira a economia, sendo totais mantenedores da classe rica, porque são essas mesmas pessoas que estão trabalhando como operárias na "indústria", que é o fator determinante para a riqueza geral das nações. Os operários industriais sustentam a economia pela sua força de trabalho e são pobres porque recebem o salário, que é mínimo, os fazendo viver numa sub economia propiciada pela baixa remuneração, sustentando os ricos nas costas, desperdiçando tempo de suas vidas para sustentar o tempo deles. Um rico é naturalmente antiético, porque ele acumula uma riqueza desnecessária para si, enquanto tal poderia facilmente remediar a sobrevivência de boa parte de toda uma sociedade. É um gerador compulsivo da desigualdade social, da fome e da desgraça de muitos para que sua luxúria seja mantida. Por isso a ideia da taxação de grandes fortunas está se tornando muito comum dentro do próprio governo dos países capitalistas.
A história das greves no Brasil, por exemplo, mostra que nem sequer o direito de parar de trabalhar era possível quando pudesse ser possível, visto que a truculência policial a mando do estado garantia a submissão dos trabalhadores. O capitalismo impõe que uma classe trabalhe para outra num sistema parasitário, vampírico, que suga a vida das massas e as fazem pensar que estão vivendo de fato com o consumismo, que garante o sentimento prestigioso de poder, uma mínima liberdade que gera frases como "felicidade de pobre dura pouco", por ter alguma remuneração para gastar e com isso uma falsa sensação de liberdade financeira. Isso é tão verídico que nos basta olhar para o número de pobres endividados por ostentação, ou olhar para o periférico que ostenta uma riqueza que não tem, comprando um Iphone enquanto mora num barraco, ou pagando prestações iguais ao do salário que recebe, enquanto mora na casa dos pais. O sistema econômico destrói a vida das pessoas e isso as levam a ter ressentimento pelo sofrimento da vida, que agora está explicito, sem direito a dúvidas, estampado na vitrine ou no comercial de TV, que deixa claro as diferenças entre o rico e o pobre. Na fadiga da vida, no castigo do suor do trabalho imposto por "deus", observar figuras messiânicas que aparecem na sociedade gritando pelo fim da corrupção que nunca acaba, afirmando um ódio ao invisível por falta de clareza de explicação, leva o crédito da população por causa do ressentimento gerado pelo próprio sofrimento imposto pelo capitalismo, amparado pelas forças de segurança do estado.
Refletindo sobre isso, a conclusão nítida que tiramos é que, não é que o capitalismo deu certo, porque ele só deu certo para quem já era rico, riqueza essa adquirida por meio do processo de colonização histórico, ou seja, a tomada à força da propriedade alheia, e para alguns, que por mera sorte, conseguiram essa façanha dentro do próprio sistema. Para o pobre catador de lixo reciclável, ele continua sendo um pesadelo diário. Portanto, o capitalismo só continua existindo porque ele é imposto pela sociedade, pela classe dominante, e só por isso. O ódio da população aqui já se torna indispensável, porque jorra no coração insatisfeito das massas, o que leva ao fenômeno do reacionarismo. Sendo um reacionário apenas um reclamador profissional, um saudosista, ou um profundo entendedor de lamentação, incapaz de pensar no futuro criado pela tecnologia e ciência, um delirioso que romantiza o passado, tenta conservar antiguidades filosóficas, destilar ódio vai ser algo espontâneo, sem fim e sem sentido. Odiar por odiar, reclamar num ciclo tosco, será a personalidade geral da maioria, que fará a sociedade retornar ao fenômeno do fascismo, que achávamos ter superado no século 20, no qual vem crescendo ultimamente na Europa, no Brasil e no mundo com amparo das redes sociais. Quando constatarmos mais tragédias, quem sabe comecemos a fazer algumas reflexões sobre como todos vivemos.
Matheus Ferreira
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