A onipotência é mais uma das qualidades esdrúxulas que encontramos vinculadas às divindades supremas. Em nosso dia a dia, estamos acostumados a lidar somente com potências finitas, que são facilmente pensáveis e mensuráveis — podem ser somadas, subtraídas, anuladas. Porém, quando levamos essa questão ao âmbito do ideal, ou seja, à potência infinita e absoluta, vemos que então ela se torna irremediavelmente absurda e contraditória. Deus, por mais que quisesse, não poderia restringir-se de algo sem, ao mesmo tempo, abdicar de sua onipotência, o que o faria deixar de ser Deus. Por exemplo, um Deus dotado de poder infinito poderia criar algo indestrutível? Não, pois a própria onipotência, por definição, nega a indestrutibilidade de qualquer coisa, visto que “poder tudo” inclui “poder destruir tudo”. Entretanto, ao mesmo tempo, ser onipotente também inclui “poder criar tudo” — até coisas indestrutíveis. Isso implica contradição. Concluímos, então, que o “criar algo indestrutível” não seria realmente uma criação, mas de fato uma abdicação do poder de destruir esse algo, ou seja, uma abdicação da própria onipotência. Deus poderia criar uma pedra tão grande que nem ele pudesse mover? Não. Ele poderia apenas criar uma pedra e, então, arbitrariamente, renunciar o poder de movê-la. A partir disso, somos forçados a admitir que a existência de uma entidade onipotente é logicamente impossível, pois, sendo contraditória, tal ideia esmaga-se a si mesma. A impressão que temos é a de que atributos idealizados como onipotência na verdade não foram criados para serem internamente coerentes ou lógicos. Provavelmente os vários “oni-algo” foram atribuídos a Deus apenas pelo seu valor estético, subjetivo, poético, pela forte influência afetiva que são capazes de exercer sobre nós, induzindo certo sentimento de reverência e admiração. Logicamente, o “ideal puro de potência da vontade” atribuído a Deus não é algo real, mas simplesmente uma abstração, um voo desnorteado da imaginação humana. Por isso não espanta que nas entranhas desse idealismo poético possam ser encontrados absurdos conceituais como esse.
André Cancian
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