Pular para o conteúdo principal

Niilismo e o vazio

    O niilismo com certeza não é para qualquer pessoa, porque ele exalta a verdade acima de tudo, independente se estamos ou não preparados para ouvi-la.
    Tudo que importa ao niilismo é se a verdade que achamos ser real corresponde de fato a realidade, ou se ela é uma completa projeção dos nossos interesses pessoais e opiniões confortáveis sobre a realidade - ou se isso acontece de forma parcial.

    Só por esse intuito filosófico, essa despreocupação se a filosofia tem de ser boa ou má, ou seja, agradável, esse comprometimento com a honestidade, ele já ganha, particularmente, grande espaço de crédito e aceitação.

    A maioria dos escritores niilistas não têm papas nas línguas, não esperam vender suas obras ou se sustentar por meio delas. Não pensam em falar meias verdades à gosto, para se afirmarem no mercado literário. Não, o niilismo, bem como o pessimismo, não têm foco na popularidade; Basicamente o que ele quer é esmagar a mediocridade das nossas ilusões, por terem vínculos com mentiras.

    Uma das melhores explicações detalhadas sobre o niilismo é de André Cancian: "Niilismo é a implosão da subjetividade".
    O subjetivo humano é o interior do homem, o "âmago do seu espírito", onde ele produz seus sentimentos, paradoxos, razões próprias, a forma como ele enxerga o mundo, a maneira como ele se sente no mundo, enfim, é a mente do homem e sua manifestação pessoal.
    Quando lemos que o tema se refere à implosão do subjetivo, é que não queremos que nossa pessoalidade afete nosso julgamento sobre a realidade, por isso limitamos nossas emoções, opiniões próprias e tudo que nos envolve pessoalmente com a realidade, para observá-la como ela de fato é, de maneira pura, pela probabilidade de uma estatística lógica. Por essa abordagem o niilismo é impopular, porque ele suprime o interesse humano na existência no intuito de deixar de sermos participantes, para meramente inspecioná-la e descrevê-la tal como é, sob a sua crua exatidão.
    Essa visão teve uma drástica característica, principalmente pelo termo "númeno", de Kant, onde ele expõe que a realidade de fato, não pode ser observada em sua inteireza pela mente humana, apenas interpretada como uma "provável realidade", porque o único meio que temos para medir tudo a nossa volta, é a lógica instrumentada nas nossas consciências, e já que não somos oniscientes, muitos dos nossos pré-julgamentos pessoais estariam maquiados de lógica imparcial, que afetaria, ou melhor, afeta, diretamente a estética da realidade.
 
    A filosofia niilista não se preocupa em pensar em causas primeiras e fins últimos, que são incertos. Para onde iremos após a morte ou se a vida é satisfatória, isso pouco importa de maneira essencial; Pensar sob as evidências materiais que já temos acumuladas na comunidade científica, até hoje - e tudo o que podemos apresentar como certeza por meio delas -, é o que realmente importa.

    Enquanto o pessimismo literário fala que o sentido da vida é a morte, e lamenta sobre isso - como uma espécie de exaltação a humanidade -, o niilismo, com pouca distinção, afirma que a vida não tem qualquer sentido, que estamos flutuando na inércia do acaso, por uma existência que a natureza não planejou e que por isso somos desnecessários e a tragédia pouco importa. Não só nós somos desnecessários, como toda a existência é desnecessária e sem sentido pela ótica materialista em que a desordem e a aleatoriedade ocasional, se fazem evidentes.
    Essa observação se soma ao emocional de um niilista e ele, em vez de lamentar sobre sua existência, ri. Com certeza não é um riso de deboche por algum tipo de recalque de um antropocentrista fanático, mas o riso da graça de sentir-se verdadeiramente vazio numa existência oca.

    Existimos por existir, é isso que as evidências materiais nos mostram até agora e não há qualquer problema nisso.
    Não somos especiais por saber disso, tampouco isso representa motivo para transtornos, é só a mostra dos fatos.

    Minha opinião particular é que se o mundo se importasse com a verdade, não teríamos adoração a deuses nem a homens, e todos seríamos niilistas, viveríamos confortavelmente com isso com total indiferença ou sob sentimentos oportunistas. Embora sabendo que nenhuma moral universal pode suprimir a anarquia da realidade existencial, usaríamos a moral, como já usamos, de maneira oportuna, para que pudéssemos nos trucidar com boas consciências, como já fazemos.

    Para o niilismo não existe uma forma comportamental de se portar, já que não existe niilismo prático, e a liberdade observada pela inexistência de leis morais objetivas na natureza, garante a possibilidade de qualquer conduta ao seu bel prazer. O mais inteligente seria focar, de maneira lógica, nas prioridades em torno de uma melhor sobrevivência, mais confortável e fácil.





Matheus Ferreira






Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Lucro líquido em prazer social

Suponha-se que nos sintamos insignificantes perante a sociedade e queiramos mudar essa situação. Como não podemos simplesmente nos dar essa sensação pelo uso da inteligência, teremos de nos manipular indiretamente, e nesse processo há duas abordagens: podemos fazer todo o possível para convencer os demais de que somos importantes, e então acreditar em seu testemunho, ou simplesmente acreditarmos nisso sozinhos por motivos que só existem em nossas cabeças. Ou seja, podemos jogar limpo, como a biologia planejou, isto é, manipular a realidade, tornarmo-nos socialmente destacados, conquistando essa importância indiretamente, por meio de um status refletido na opinião pública, e em função disso nos acreditarmos importantes — ou simplesmente manipular a mente, cultivando crenças errôneas quaisquer que nos proporcionem essa mesma sensação. O resultado é idêntico: a crença de que somos importantes e o lucro líquido em prazer. Pensemos mais a respeito. Qual é a diferença entre ser importante e ...

Epicurismo, Estoicismo e o Niilismo Otimista

     Quando Kant propõe a existência do objeto incognoscível, que é o mundo objetivo exterior impossibilitado à compreensão humana, e chama o objetivo de "númeno", fazendo a separação do subjetivo, ele arma um desenho claro da ideia do que é a realidade real, ou seja, o que ela é em si, do que nós interpretamos sobre o que ela possa ser. Porém, em todo esse desenho há um erro. Porque, se é impossível interpretarmos a realidade como ela exatamente é, como existir qualquer avanço científico? Como manipular a matéria para fazer uma cadeira, por exemplo? Como fabricarmos prédios, naves que vão ao espaço, remédios para hipertensão, soníferos ou qualquer coisa que influencie no mundo material, se não conseguimos compreende-lo em sua totalidade? Embora esse raciocínio evidencie muita imaginação, o mundo objetivo existe como a coisa fora de nós, enquanto podemos separar o que há dentro de nós como o que é subjetivo. Se olharmos para a natureza e admitirmos que ela é péssima porqu...

A razão na existência é absurda - Camus

Eu dizia que o mundo é absurdo, mas ia muito depressa. Este mundo não é razoável em si mesmo, eis tudo o que se pode dizer. Porém o mais absurdo é o confronto entre o irracional e o desejo desvairado de clareza cujo apelo ressoa no mais profundo do homem. O absurdo depende tanto do homem quanto do mundo. Por ora, é o único laço entre os dois. Ele os adere um ao outro como só o ódio pode juntar os seres. É tudo o que posso divisar claramente neste universo sem medida onde minha aventura se desenrola. Paremos por aqui. Se considero verdadeiro esse absurdo que rege minhas relações com a vida, se me deixo penetrar pelo sentimento que me invade diante do espetáculo do mundo, pela clarividência que me impõe a busca de uma ciência, devo sacrificar tudo a tais certezas e encará-las de frente para poder mantê-las. Sobretudo, devo pautar nelas minha conduta e persegui-las em todas as suas consequências. Falo aqui de honestidade. Mas, antes, quero saber se o pensamento pode viver nes...