Certos temas existencialistas precisam ser explicados por terminologias e frases ultra descritivas, e o pessimismo é um deles.
O pessimismo é um realce da fragilidade da vida humana, desde a inexistência de vínculo afetivo da natureza para com nossa espécie, até a sobrevivência e, por fim, e mais desolador, o descaso da natureza sobre todos os seres existentes.
Fracassamos na vida - todos por igual - desde que nascemos, porque a autonomia do homem não manipula as ações cruciais da sua própria existência, desde a possibilidade de nascer com doenças terminais ou que causarão grande sofrimento no decorrer da vida, ou no ínterim da vida, à impossibilidade de transcender a morte evitando-a, ou alterar a data dos nossos destinos finais, ou a extinção do tédio da maneira real, sem entorpecentes. Falo de maneira específica sobre isso, porque a conclusão do que é sucesso baseado no senso comum é de termos o máximo de autonomia, o que nos leva ao apogeu do estado de poder, ou um patamar em que temos maior poder do que a maioria. A ideia descrita nesse senso, só funciona para apalpar nossos egos dentro da sociedade, para a facilidade de nossas ações serem completadas de acordo com nosso querer. Funciona dentro da sociedade e jamais fora dela. Em uma explanação mais descritiva: fracassamos na existência de forma igualitária mas nos iludimos entre si de que somos superiores uns aos outros por uma falsa autonomia derivante do sucesso que existe apenas em nossas cabeças.
Ao observarmos o descaso da natureza para com nossa espécie, quando verdadeiramente conscientes disso por reflexões minuciosas sobre os axiomas das obviedades tão claras e pouco refletidas vistas na história da humanidade e nas evidências científicas, nossa frustração se eleva a um pico em que nossa autonomia se sujeita a inferioridade da incapacidade. É como se as vastas possibilidades de alcance das nossas metas, agora se reduzissem a uma ou duas, talvez nenhuma - talvez a um punhado de ilusões que precisamos preservar para manter a saúde mental, com o fim de ter forças para levantar de manhã e encarar o fatídico dia. Essa ruptura, esse choque de realidade, que mais parece a colocada dos pés no chão, chamamos de "luto niilista".
O estado de enlutamento niilista é inevitável, após estarmos conscientes da vastidão do universo e das quebras das bases das nossas crenças antropocentristas mais motivadoras, onde teremos duas opções distintas e interligadas entre si, para continuarmos vivendo e mantendo a saúde mental: "aderir ao lirismo filosófico e romantizar o pessimismo da existência", ou "nos tornarmos verdadeiramente apáticos e consequentemente insensíveis às nossas emoções sobre a realidade". Os dois modos são observados na história da filosofia e ambos são usados por filósofos tanto quanto Schopenhauer, como Cioran.
Ao contrário do niilismo, que afirma corretamente de que nossa vida é, para a natureza, simplesmente desnecessária, e apresenta daí uma visão mais abastada de tempo, que engloba o pensamento sobre a anterioridade da existência e seu depois, a filosofia pessimista reflete sobre o que há dentro da existência humana, sobre as dores do mundo e as fraquezas da humanidade, o levantamento das frustrações, seu aspecto legítimo.
O que a filosofia pessimista faz, ao contrário do que diz o otimismo e sua esperança exacerbada, é colocar todo o peso da força da natureza contra nós, na parede, e se pautar em cima disso para a resolução das equações reflexivas, ao invés de maquiá-las com ideias de intencionalidades e transcendências imateriais.
Uma realidade sobre a matéria, é que ela volta para o nada e sofre no percurso. A única diferença para essa matéria, é se ela está consciente ou não disso.
Se pesarmos toda a característica da existência humana com base na história da humanidade, veremos o homem sofrendo as dores do tédio e da falta de recursos para sobreviver, o levando a labutas severas; E, em meio a isso, a existência de cantorias esperançosas, a criação de moralidades, deuses, amor, arte, para suprir não só seu tédio mas lhe dar conforto emocional e equilíbrio psicológico.
A vida para um homem que abdica da razão é o que ele quiser que seja. Mas, na medida que olhamos para a realidade da vida humana e da natureza, e vemos a monotonia de abismos caóticos e sem sentidos, se não nos sentirmos suspensos e desesperados, ou há algo errado com nossa crítica relacionado a falta de amor próprio, ou sofremos de alguma patologia da mente em que a razão não tem relevância.
Concorrendo ao descargo pessimista, temos um otimismo cheio de mantras e sorrisos fingidos, que serve como muletas para encarar a realidade de maneira covarde. Enquanto o pessimismo grita "coragem", o otimismo fala que "não precisamos refletir sobre isso, por enquanto", e esse "por enquanto" dura até a morte, e morremos sob a irreflexão de nossa covardia que nos acalentou a vida inteira. Por fim, o dom da racionalidade dada pela evolução à nossa espécie, não serviu para quase nada além de uma sobrevivência tapada.
Nem se um dia o homem vencesse a morte, criando alguma máquina ou remédio que o tornasse imortal, o pessimismo seria descartado, porque o tédio desolaria cada fio de cabelo humano, e o que nos restaria seria a busca louca por entorpecentes para fugir da realidade.
Numa reflexão sobre esse estado, ele seria o ápice do fracasso e do medo, mantido de todas as maneiras para encobrir nossos preconceitos sobre a aceitação da realidade.
Como fugir da tristeza impregnada nas entranhas do ser, se todos os caminhos nos levam ou a ela ou a ignorarmos ela?
Matheus Ferreira
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