Em termos gerais, os complexos são criados por traumas. Antes do trauma, a peça arquetípica existe como imagem e força motivadora mas não tem as mesmas qualidades perturbadoras e produtoras de ansiedade do complexo. O trauma cria uma imagem mnêmica emocionalmente carregada que se associa a uma imagem arquetípica e, juntas, essas congelam numa estrutura mais ou menos permanente. Essa estrutura contém uma quantidade específica de energia e pode com esta ligar-se a outras imagens associadas para criar uma rede. Assim, um complexo é enriquecido e ampliado por experiências ulteriores de uma espécie semelhante. Mas nem todos os traumas são de natureza externa ou provocados por colisões abrasivas com o meio circundante. Existem traumas que ocorrem sobretudo no interior da psique individual. Jung indica que complexos podem ser também criados ou suplementados por “um conflito moral que deriva, em última instância, da impossibilidade aparente de afirmar a totalidade da natureza humana”. 21 As atitudes morais efêmeras em nossa sociedade impossibilitam a afirmação completa dessa totalidade em muitas situações. Temos que negar os nossos verdadeiros sentimentos e abster-nos de exprimi-los para nos entendermos ou, ocasionalmente, até para sobreviver. Realizar tais ajustes sociais a bem da adaptação cria uma máscara social, uma “persona”, que exclui partes essenciais de nós próprios. De um modo geral, as pessoas preferem ser incluídas em seus grupos sociais, e aquelas que expressam suas ideias e opiniões com total franqueza ou não se submetem aos padrões do grupo tendem a ser marginalizadas ou condenadas ao ostracismo. Esse dilema social coloca uma pessoa no que Jung chama de um conflito moral. No nível mais profundo, o imperativo é ser todo. A natureza humana rebela-se contra as restrições da sociedade e da cultura, se estas inibem com excessiva severidade o impulso inato para a totalidade, e isto é uma fonte adicional de complexos. Foi esta a questão de que Freud se ocupou em Viena, uma sociedade que era, no plano formal, sexualmente inibida mas também flagrantemente hipócrita em seus costumes sexuais. Freud demonstrou como os conflitos em torno da sexualidade têm raízes em padrões psicológicos e produzem neurose. A sexualidade, que está embutida na constituição inata do ser humano, torna-se socialmente incompatível e é, por conseguinte, separada da consciência e reprimida. Isso gera um complexo sexual em torno do qual se aglomeram os traumas com ele relacionados. Fundamentalmente, o que faz da repressão da sexualidade a fonte de patologia é o insistente imperativo do organismo humano em querer realizar a sua totalidade inata, a qual inclui a sexualidade não-inibida. Não é o conflito entre o indivíduo e a sociedade per se que produz o problema neurótico, como Freud argumentou, mas o conflito moral que se produz numa psique que quer negar-se a si mesma, por um lado, mas é forçada a afirmar-se, por outro.
Murray Stein em O Mapa da Alma
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