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A cultura é o símbolo da natureza humana e expressa-a como que por metáforas ou desvios que levam para, ou representam, o mesmo propósito

    Jung não concebe a natureza e a cultura como diametralmente opostas uma à outra. Pelo contrário, considera que ambas pertencem à natureza humana de um modo fundamental. As invenções humanas da cultura e da especialização no trabalho produzem-se mediante a criação pela mente de análogos para as metas e atividades instintivas. Tais análogos funcionam como símbolos. 22 ideias e imagens — conteúdos mentais — canalizam a libido em novas direções, desviando-a de seus gradientes e objetos naturais. Por exemplo, surge na criança pequena uma ideia que é tão atraente quanto a imagem do seio nutrício. Essa ideia, concretizada em atividades lúdicas, atrai para si mais energia do que o próprio seio e permite à criança retardar a satisfação da necessidade premente de mamar e, por fim, o desmame espontâneo. Na vida adulta, o análogo ou símbolo que substitui o seio pode ser uma refeição de gourmet. O pensamento de desfrutar de haute cuisine oferece ao adulto o mesmo tipo de calmante que a imagem do seio farto à criança pequena. Uma ideia ou um objeto cultural capta assim a energia que, de outro modo, permaneceria fixada no seio da mãe. Seio e restaurante são símbolos para algo que, nesse momento do desenvolvimento psicológico, não pode expressar-se de melhor maneira. Um símbolo atrai para si uma grande soma de energia e dá forma aos processos pelos quais a energia psíquica é canalizada e consumida. As religiões têm tradicionalmente atraído grandes somas de energia humana e apoiam-se, para o seu poder, quase exclusivamente em símbolos. Através do seu uso de símbolos, elas também se tornam política e economicamente poderosas, mas esses poderes são secundários em relação ao simbólico que lhes fornece uma base sólida. Retire-se o poder simbólico e todo o edifício desmorona. Quando vivos e vibrantes, ideias e rituais religiosos têm um tremendo poder para atrair a energia humana para certas atividades e preocupações. Por que o símbolo tem um gradiente mais elevado do que o objeto natural? Como pode uma ideia tornar-se mais interessante e convincente para os seres humanos do que objetos instintivamente atrativos, como seios ou pênis? Jung sabia muito bem que isso não acontece em consequência de uma decisão tomada pelo ego. Quando “Bill W.” (William G. Wilson), co-fundador dos Alcoólicos Anônimos, escreveu a Jung em 1961 e o informou sobre o ocorrido com Roland H. (um paciente a quem Jung tinha tratado por alcoolismo no começo da década de 1930), Jung respondeu admitindo que o terapeuta é essencialmente impotente ao tentar vencer a dependência do paciente de uma substância. 23 A mensagem de Jung dizia — na minha paráfrase de sua carta — Você precisa de um símbolo, de um análogo que atraia a energia que foi para a bebida. Tem que encontrar um equivalente que seja mais interessante do que beber todas as noites, que atraia o seu interesse mais do que uma garrafa de vodca. Um símbolo poderoso é requerido para provocar uma importante transformação num alcoólico, e Jung falou da necessidade de uma experiência de conversão. Os símbolos emergem da base arquetípica da personalidade, o inconsciente coletivo. Não são inventados artificialmente pelo ego mas, pelo contrário, surgem de modo espontâneo do inconsciente, sobretudo em tempos de grande necessidade. Os símbolos são os grandes organizadores da libido. O uso por Jung do termo símbolo é muito preciso. Um símbolo não é um signo. Os signos podem ser lidos e interpretados sem perda de seu significado. Um signo de parar significa “Pare!” Mas um símbolo é, no entender de Jung, o melhor enunciado ou expressão possível para algo que é ou essencialmente incognoscível ou ainda não cognoscível, dado o presente estado de consciência. As interpretações de símbolos são tentativas para traduzir o significado do símbolo para um vocabulário e um conjunto de termos mais compreensíveis, mas o símbolo permanece como a melhor expressão presente do significado que ele comunica. Os símbolos franqueiam-nos o caminho de acesso ao mistério. Também combinam elementos de espírito e instintividade, de imagem e pulsão. Por essa razão, as descrições de estados espirituais exaltados e de experiências místicas referem-se frequentemente a satisfações físicas e instintivas, como alimentação e sexualidade. Os místicos falam sobre o êxtase da união com Deus como uma experiência orgásmica, e é muito provável que o seja. A experiência do símbolo une corpo e alma num poderoso e convincente sentimento de integralidade.



Murray Stein em O Mapa da Alma

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