"Se fizéssemos um homem ver claramente os terríveis sofrimentos e misérias a que sua vida está exposta constantemente, ele ficaria horrorizado; e se conduzíssemos o otimista crônico pelos hospitais, enfermarias e salas de operações cirúrgicas, pelas prisões, câmaras de tortura e choças de escravos, por campos de batalhas e locais de execuções; se abríssemos para ele todas as escuras moradas da miséria, onde ele se esconde dos olhares da fria curiosidade; e, finalmente, deixássemos que ele olhasse para dentro dos famintos calabouços de Ugolino, também ele iria compreender, afinal, a natureza deste "melhor de todos os mundos possíveis". Porque, de onde tirou Dante a matéria-prima do seu inferno, a não ser do nosso mundo real? E no entanto, ele fez um inferno muito adequado com esse material. Mas quando, por outro lado, pretendeu descrever o céu e suas delícias, teve diante de si uma dificuldade insuperável, pois o nosso mundo não fornece matéria-prima alguma para isso. (...) Todo poema épico e dramático só pode representar uma disputa, um esforço, uma luta pela felicidade; uma felicidade nunca duradoura e completa. Ele conduz o seu herói através de mil perigos e dificuldades até o objetivo; tão logo ele é atingido, urge fazer descer o pano; porque agora não restaria nada a fazer senão mostrar que o fulgurante objetivo no qual o herói esperava encontrar felicidade só fizera desapontá-lo, e que depois de consegui-lo ele não estava em situação melhor do que antes".
Arthur Schopenhauer
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