Pular para o conteúdo principal

Qual a justificação do sofrimento?

O sofrimento impressiona-me tanto que perco quase toda a coragem. Eu não posso entender a razão do sofrimento no mundo; que ele derive da bestialidade, da irracionalidade, do demonismo da vida, isto explica sua presença, mas não fornece sua justificação. É, então, provável que o sofrimento não tenha nenhuma, da mesma forma que a existência em geral. A existência deveria ser? Ou ela tem uma razão puramente imanente? O ser não é apenas ser? Por que não admitir um triunfo final do não-ser, por que não admitir que a existência caminha em direção ao vazio, e o ser em direção ao não-ser? Este último ponto não constituiria a única realidade absoluta?





Emil Cioran

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Lucro líquido em prazer social

Suponha-se que nos sintamos insignificantes perante a sociedade e queiramos mudar essa situação. Como não podemos simplesmente nos dar essa sensação pelo uso da inteligência, teremos de nos manipular indiretamente, e nesse processo há duas abordagens: podemos fazer todo o possível para convencer os demais de que somos importantes, e então acreditar em seu testemunho, ou simplesmente acreditarmos nisso sozinhos por motivos que só existem em nossas cabeças. Ou seja, podemos jogar limpo, como a biologia planejou, isto é, manipular a realidade, tornarmo-nos socialmente destacados, conquistando essa importância indiretamente, por meio de um status refletido na opinião pública, e em função disso nos acreditarmos importantes — ou simplesmente manipular a mente, cultivando crenças errôneas quaisquer que nos proporcionem essa mesma sensação. O resultado é idêntico: a crença de que somos importantes e o lucro líquido em prazer. Pensemos mais a respeito. Qual é a diferença entre ser importante e ...

Epicurismo, Estoicismo e o Niilismo Otimista

     Quando Kant propõe a existência do objeto incognoscível, que é o mundo objetivo exterior impossibilitado à compreensão humana, e chama o objetivo de "númeno", fazendo a separação do subjetivo, ele arma um desenho claro da ideia do que é a realidade real, ou seja, o que ela é em si, do que nós interpretamos sobre o que ela possa ser. Porém, em todo esse desenho há um erro. Porque, se é impossível interpretarmos a realidade como ela exatamente é, como existir qualquer avanço científico? Como manipular a matéria para fazer uma cadeira, por exemplo? Como fabricarmos prédios, naves que vão ao espaço, remédios para hipertensão, soníferos ou qualquer coisa que influencie no mundo material, se não conseguimos compreende-lo em sua totalidade? Embora esse raciocínio evidencie muita imaginação, o mundo objetivo existe como a coisa fora de nós, enquanto podemos separar o que há dentro de nós como o que é subjetivo. Se olharmos para a natureza e admitirmos que ela é péssima porqu...

A razão na existência é absurda - Camus

Eu dizia que o mundo é absurdo, mas ia muito depressa. Este mundo não é razoável em si mesmo, eis tudo o que se pode dizer. Porém o mais absurdo é o confronto entre o irracional e o desejo desvairado de clareza cujo apelo ressoa no mais profundo do homem. O absurdo depende tanto do homem quanto do mundo. Por ora, é o único laço entre os dois. Ele os adere um ao outro como só o ódio pode juntar os seres. É tudo o que posso divisar claramente neste universo sem medida onde minha aventura se desenrola. Paremos por aqui. Se considero verdadeiro esse absurdo que rege minhas relações com a vida, se me deixo penetrar pelo sentimento que me invade diante do espetáculo do mundo, pela clarividência que me impõe a busca de uma ciência, devo sacrificar tudo a tais certezas e encará-las de frente para poder mantê-las. Sobretudo, devo pautar nelas minha conduta e persegui-las em todas as suas consequências. Falo aqui de honestidade. Mas, antes, quero saber se o pensamento pode viver nes...