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Esgotamento e Agonia - Emil Cioran

Conheceis esta atroz sensação de fundir-vos, de perder todo o vigor para escorrer como um rio, de sentir vosso ser anular-se numa estranha liquefação e como que esvaziado de toda a substância? Eu faço alusão aqui a uma sensação que não é vaga e indeterminada, mas precisa e dolorosa. Nada mais sentir além da cabeça, cortada do corpo e isolada de maneira alucinante! Longe do esgotamento vago e voluptuoso que se sente enquanto contemplando o mar ou deixando-se tomar por divagações melancólicas, aqui se trata de um esgotamento que vos consome e vos destrói. Nenhum esforço, nenhuma esperança, nenhuma ilusão poderá seduzir-vos depois dela. Permanecer estupefato por sua própria catástrofe, incapaz de pensar ou de agir, esmagado pelas trevas glaciais, desorientado como se sob a dominação de alguma alucinação noturna ou abandonado como nos momentos de remorso, é atingir o limite negativo da vida, a temperatura extrema que desmascara a última das ilusões. Nesta sensação de esgotamento revelar-se-á o verdadeiro sentido da agonia: longe de ser um combate quimérico, ela dá a imagem da vida se debatendo nas garras da morte, sem quaisquer chances de vencê-la. A agonia como combate? Um combate contra quem e por que? Seria falso interpretar a agonia como um movimento provocado pela sua própria inutilidade, ou como um tormento que portasse sua finalidade em si mesmo. Fundamentalmente, agonizar significa submeter-se ao suplício, equilibrando-se na fronteira entre a vida e a morte. Esta sendo imanente a aquela, a vida torna-se, em sua quase totalidade, uma agonia. Quanto a mim, eu qualifico os instantes de agonia apenas como as fases mais dramáticas desta luta entre a vida e a morte - onde vivemos esta última de um modo consciente e doloroso. A verdadeira agonia une-nos ao Nada por meio da morte; a sensação de esgotamento consome-nos, então, imediatamente e a morte leva a vitória. Encontra-se em toda verdadeira agonia este triunfo da morte, mesmo que, uma vez passados os instantes de esgotamento, continue-se a viver. Onde está, em meio a este suplício, o combate quimérico? A agonia não tem, em qualquer estado de causa, um caráter definitivo? Não se parece ela a uma doença incurável que nos atormenta intermitentemente? Os instantes de agonia indicam uma progressão da morte às custas da vida, um drama da consciência originário da ruptura do equilíbrio entre vida e morte. Eles sobrevêm apenas em plena sensação de esgotamento, quando a vida atingiu seu nível mais baixo. A frequência destes instantes é um índice de decomposição e de destruição. A morte é a única obsessão que não pode se tornar voluptuosa; mesmo quando desejada, este desejo se faz acompanhar de um arrependimento implícito. Eu quero morrer, mas arrependo-me de desejá-lo: voilà o que sentem todos aqueles que se abandonam ao Nada. O sentimento mais perverso de todos é o da morte. E dizer que existem pessoas cuja obsessão perversa da morte impede de dormir! Como eu amaria perder toda a consciência de mim mesmo e deste mundo!




Emil Cioran in Nos Cumes do Desespero

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