Como eu adoraria que todas as pessoas ocupadas ou encarregadas de missões,
homens e mulheres, jovens e velhos, sérios e levianos, felizes e tristes,
abandonassem um belo dia suas necessidades, renunciando a todo dever ou
obrigação, para sair na rua e dar fim a toda atividade! Estas pessoas
estúpidas, que trabalham sem razão e se orgulham de contribuir para o bem
da humanidade, labutando pelas gerações futuras sob o impulso da mais
sinistra das ilusões, se vingariam então de toda a mediocridade de uma vida
nula e estéril, deste absurdo desperdício de energia tão contrário a todo
avanço espiritual. Como eu degustaria o instante em que mais ninguém se
deixaria enganar por um ideal ou tentar por uma das satisfações que oferece a
vida, em que toda resignação seria ilusória, em que as estruturas de uma vida
normal explodiriam definitivamente! Todos aqueles que sofrem em silêncio,
sem ousar exprimir sua amargura pelo menor suspiro, gritariam então num
coro sinistro, cujos clamores terríveis fariam tremer a terra inteira. Que
possam as águas romper e as montanhas abalar-se horrivelmente, as árvores
exibir suas raízes como uma hedionda e eterna advertência, os pássaros
crocitar como os corvos, os animais assustados vagar até o esgotamento. Que
todos os ideais sejam declarados nulos; as crenças - ninharias; a arte - uma
mentira, e a filosofia - uma gozação. Que tudo seja erupção e colapso. Que
vastos pedaços arrancados do solo voem e sejam reduzidos a poeira; que as
plantas componham no firmamento arabescos bizarros, contorções grotescas,
figuras mutiladas e assustadoras. Possam os turbilhões de chamas elevar-se
num ímpeto selvagem e invadir o mundo inteiro, para que mesmo o menor
dos seres vivos saiba que o fim está próximo. Que toda forma se torne
informe e que o caos engula numa vertigem universal tudo o que, neste
mundo, possua estrutura e consistência. Que tudo seja uma demente colisão -
estertor colossal, terror e explosão, seguidos de um silêncio eterno e de um
esquecimento definitivo. Que nestes momentos finais os homens vivam numa
tal temperatura que tudo quanto a humanidade nunca sentira em matéria de
pesar, aspiração, amor, ódio e desespero estoure neles numa devastadora
explosão. De tal insurreição, na qual ninguém mais encontraria sentido para a
mediocridade do dever, em que a existência se desintegraria sob a pressão de
suas contradições internas, o que restaria afora o triunfo do Nada e a apoteose
do não-ser?
Emil Cioran in Nos Cumes do Desespero
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