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Mostrando postagens de abril, 2020

O non-sense do vir-a-ser

Na tranquilidade da contemplação, quando pesa sobre você o peso da eternidade, quando você escuta o tic-tac de um relógio ou a batida dos segundos, como não sentir a inutilidade da progressão no tempo e o nonsense do vir-a-ser? Para quê ir mais longe, para quê continuar? A revelação súbita do tempo, conferindo-lhe uma esmagadora proeminência que não tem nada de ordinária, é o fruto de um desgosto com a vida, com a incapacidade de continuar a conduzir a mesma comédia. Quando esta revelação se produz de noite, o absurdo das horas que passam dobra-se numa sensação de solidão aniquilante, pois - à parte do mundo e dos homens - você encontra-se só face ao tempo, numa irredutível relação de dualidade. No seio do abandono noturno, o tempo não é mais, com efeito, enfeitado com atos nem objetos: ele evoca um nada crescente, um vazio em plena dilatação, comparável a uma ameaça do além. No silêncio da contemplação ressoa então um som lúgubre e insistente, como um gongo que dissociou existência e ...

O lirismo absoluto - Emil Cioran

Eu gostaria de explodir, escorrer, decompor-me - e que esta destruição seja a minha obra, minha criação, minha inspiração. Produzir-me no esvaziamento, elevar-me, num ímpeto demente, para além dos confins - e que minha morte seja meu triunfo. Eu gostaria de fundir-me ao mundo e que o mundo se fundisse em mim - que nós gerássemos, em nosso delírio, um sonho apocalíptico, estranho como uma visão do fim e magnífico como um grande crepúsculo. Que nasçam, do tecido de nosso sonho, esplendores enigmáticos e sombras conquistadoras, que um incêndio total engula este mundo e que suas chamas provoquem volúpias crepusculares, tão complicadas quanto a morte e tão fascinantes como o vazio. Preciso das tensões da demência para que o lirismo atinja sua expressão suprema. O lirismo absoluto é aquele dos últimos instantes. A expressão aí confunde-se com a realidade, torna-se tudo, torna-se uma hipóstase do ser. Não mais objetivação parcial, menor e não reveladora, mas parte integrante de nós mesmos. À ...

Qual a justificação do sofrimento?

O sofrimento impressiona-me tanto que perco quase toda a coragem. Eu não posso entender a razão do sofrimento no mundo; que ele derive da bestialidade, da irracionalidade, do demonismo da vida, isto explica sua presença, mas não fornece sua justificação. É, então, provável que o sofrimento não tenha nenhuma, da mesma forma que a existência em geral. A existência deveria ser? Ou ela tem uma razão puramente imanente? O ser não é apenas ser? Por que não admitir um triunfo final do não-ser, por que não admitir que a existência caminha em direção ao vazio, e o ser em direção ao não-ser? Este último ponto não constituiria a única realidade absoluta? Emil Cioran

Apocalipse - Emil Cioran

Como eu adoraria que todas as pessoas ocupadas ou encarregadas de missões, homens e mulheres, jovens e velhos, sérios e levianos, felizes e tristes, abandonassem um belo dia suas necessidades, renunciando a todo dever ou obrigação, para sair na rua e dar fim a toda atividade! Estas pessoas estúpidas, que trabalham sem razão e se orgulham de contribuir para o bem da humanidade, labutando pelas gerações futuras sob o impulso da mais sinistra das ilusões, se vingariam então de toda a mediocridade de uma vida nula e estéril, deste absurdo desperdício de energia tão contrário a todo avanço espiritual. Como eu degustaria o instante em que mais ninguém se deixaria enganar por um ideal ou tentar por uma das satisfações que oferece a vida, em que toda resignação seria ilusória, em que as estruturas de uma vida normal explodiriam definitivamente! Todos aqueles que sofrem em silêncio, sem ousar exprimir sua amargura pelo menor suspiro, gritariam então num coro sinistro, cujos clamores terríveis f...

Sobre a morte - Emil Cioran {O ultimato da vida}

Certos problemas, uma vez aprofundados, isolam-nos na vida, esvaziam-nos de todo: então não temos mais nada a perder ou a ganhar. A aventura espiritual ou a projeção indefinida em direção às formas múltiplas da vida, a tentação de uma realidade inacessível não são mais do que simples manifestações de uma sensibilidade exuberante, privada da seriedade que caracteriza quem aborda questões vertiginosas. Não se trata aqui da gravidade superficial daqueles de quem se diz "sérios", mas de uma tensão cuja loucura exacerbada eleva-nos, a todo o momento, ao plano da eternidade. Viver na história perde então toda a significação, pois o instante é experimentado tão intensamente que o tempo desaparece perante a eternidade. Alguns problemas puramente formais, não importa o quão difíceis eles sejam, não exigem de nenhuma forma uma seriedade infinita, pois, longe de surgir das profundezas do nosso ser, eles são unicamente os produtos da incerteza da inteligência. Somente o pensador orgânico...

O Grotesco e o Desespero - Emil Cioran

De todas as formas do grotesco, a mais estranha, a mais complicada, me parece ser aquela que mergulha suas raízes no desespero. As outras não visam nada além de um paroxismo de segunda mão. Ou existe um paroxismo mais profundo, mais orgânico, do que aquele do desespero? O grotesco aparece quando uma carência vital engendra grandes tormentos. Pois não se vê uma tendência desenfreada à negatividade na mutilação bestial e paradoxal que deforma os traços do semblante para lhes imprimir uma estranha expressividade, neste olhar habitado por sombras e luzes distantes? Intenso e irremediável, o desespero só se objetiva na expressão do grotesco. Este representa, com efeito, a negação absoluta da serenidade - este estado de pureza, de transparência e de lucidez, nas antípodas do desespero -, este que engendra apenas Nada e caos. Provastes da monstruosa satisfação de observar-vos no gelo depois de inumeráveis noites em claro? Submeteste-vos à tortura de insônias em que cada instante da noite é se...

Esgotamento e Agonia - Emil Cioran

Conheceis esta atroz sensação de fundir-vos, de perder todo o vigor para escorrer como um rio, de sentir vosso ser anular-se numa estranha liquefação e como que esvaziado de toda a substância? Eu faço alusão aqui a uma sensação que não é vaga e indeterminada, mas precisa e dolorosa. Nada mais sentir além da cabeça, cortada do corpo e isolada de maneira alucinante! Longe do esgotamento vago e voluptuoso que se sente enquanto contemplando o mar ou deixando-se tomar por divagações melancólicas, aqui se trata de um esgotamento que vos consome e vos destrói. Nenhum esforço, nenhuma esperança, nenhuma ilusão poderá seduzir-vos depois dela. Permanecer estupefato por sua própria catástrofe, incapaz de pensar ou de agir, esmagado pelas trevas glaciais, desorientado como se sob a dominação de alguma alucinação noturna ou abandonado como nos momentos de remorso, é atingir o limite negativo da vida, a temperatura extrema que desmascara a última das ilusões. Nesta sensação de esgotamento revelar-se...