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Divagação sobre a inanidade da moral exemplificada entre a ótica política

"...“Direita” e “esquerda”, meras aproximações de que infelizmente não podemos nos eximir. Não recorrer a elas seria desistir de tomar partido, suspender o julgamento em matéria política, se libertar das coações da duração, exigir do homem que desperte para o absoluto, que se torne unicamente um animal metafísico. A tal esforço de emancipação, a tal salto para fora das nossas verdades de adormecidos, poucos são suscetíveis. Entorpecidos todos nós estamos. E, paradoxalmente, é por isso que agimos. Continuamos então como se nada tivesse acontecido, fazendo sempre nossas distinções tradicionais, felizes por ignorarmos que os valores que surgem no tempo são, em última instância, substituíveis. As razões que levam o mundo político a forjar conceitos e categorias são muito diferentes das que invocam uma disciplina teórica: se a ambos parecem necessárias, as do primeiro, no entanto, ocultam realidades menos honrosas: todas as doutrinas de ação e de combate, com seu aparato e seus esquemas, só foram inventadas para dar boa consciência aos homens, para permitir que se odiassem... dignamente, sem cerimônia nem remorso. Pensando bem, não seria legítimo concluir que, diante dos acontecimentos, só resta ao espírito livre, rebelde ao jogo das ideologias mas ainda presto ao tempo, a escolha entre o desespero e o oportunismo?"...

E completa, criticando as diferenças nas superfícies das ideologias:

"Quer se inspirem na utopia ou na reação, os absolutismos se parecem e se confundem. Independentemente de seu conteúdo doutrinário, que os diferencia apenas na superfície, participam de um mesmo esquema, de uma mesma conduta lógica, fenômeno próprio a todos os sistemas que, não contentes em afirmar um princípio incondicionado, ainda o transformam em dogma e em lei. Um modo de pensar idêntico preside a elaboração de teorias materialmente distintas, mas formalmente análogas. Quanto às doutrinas da Unidade, elas são tão parecidas que, se estudarmos qualquer uma, estudamos ao mesmo tempo todos os regimes que, recusando a diversidade na ideia e na prática, negam ao homem o direito à heresia, à singularidade ou à dúvida".



Exercícios de Admiração - Emil Cioran.

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